domingo, 6 de dezembro de 2009

Será mesmo neblina?



Já tem um tempinho que a cidade de Manaus tem amanhecido meio nebulosa....




Tem se ouvido falar até em chuva ácida... queimada...






O problema é que até agora ninguém sabe ao certo do que se trata. E nem a mídia televisiva tem manifestado qualquer coisa sobre o assunto.... Enquanto isso todos amanhecem cheirando fumaça, com cheiro de cinza, aliás tudo é bem cinza logo cedo.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Fonte: youtube




Este vídeo apresenta o trabalho realizado em Ghana por sua população, na qual são recebidos toneladas e toneladas de equipamentos eletrônicos. De forma que avessa as normas internacionais, causando degradação ao meio ambiente, e marginalizando da maneira como é feito o descarte de equipamentos com defeito, e ainda expondo inocentes a material altamente perigoso.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

As marcas de uma sociedade na arte

Desde os primórdios, as sociedades vêem deixando vestígios em diversas formas de arte, sejam pintura, escultura, cestaria e música; formatos tais que expressam organização clânica, genealogia, estruturas e mitologia. A arte, observada como objeto estudo, “é possível tê-lo como fenômeno estético, importante para o estudo das representatividades simbólicas, possuidora de dimensões filosóficas, reflexiva e de significado cosmológico” (Velthen apud Levy-Strauss). Nestes termos, a música aparece em “O mistério do samba”, como um campo privilegiado onde é possível perceber como aspectos do debate sobre definição da identidade brasileira, influências e seqüelas.

Nesta obra, Hermano Viana, propõe apresentar a transformação do samba, de música repreendida à identidade nacional. Processo que desde fins do século XIX e início do século XX, que passou por diversas modificações histórico-sociais, identidade que apercebida por Gilberto Freyre, poderia ter sido construída, a partir do encontro de uma roda de músicos de classes sociais e estilos diferentes, e ainda escritores como Gilberto e Sergio Buarque de Holanda. Através destes encontros se conceberia a adoção de um ritmo diferentemente ouvido pela classe erudita clássica. Demonstrando o autor assim que o samba não nasceu necessariamente no morro, mas embaixo e em área nobre.

Sob olhar freyreano, críticas abordam saudosamente, um Rio de Janeiro que há muito estava empapado de inspiração e poesia, e que emanava de qualquer esquina – tudo era motivo para uma nova composição, desavenças, amores, desilusões,... Mas que aos poucos foi modificado pelas intervenções urbanísticas, sofridas nas primeiras duas décadas. Das quais, neste período, o compositor Sinhô, compôs “A Favela vai abaixo”, com primeira gravação em 1927 – na voz de Francisco Alves -, apresentando o episódio, parodiando as ações do engenheiro que chamava-se Agache, provavelmente nas prefeituras de Pereira Passos ou ainda de Arthur Bernardes. A princípio, as aspirações por ‘modernidade’, eram na busca de equalizar as favelas e cortiços que se localizavam entre mansões de distintas famílias, e a preocupação de formar uma avenida (Atlântica) para o comércio e a alta sociedade. Empurrando assim, os pobres e negros para a zona norte. Freyre visualizou o campo privilegiado e representativo da música – identidade étnica, construção de mundos, transformação social por contatos interétnicos, em circunstância no ‘encontro’.

No cenário fundado entre ricos e pobres o samba estava com ascensão às casas de shows, cinemas entre outros espaços, que ficariam para sempre marcados pela fecundidade e de presenças marcantes que compunham, por exemplo, “A Casa da Tia Ciata” e o Cinema como o “Palais”. Casas como as das baianas “Tia Ciata e Tia Amélia – mãe de Donga”, eram redutos de bons violonistas, músicos e compositores de cor negra, que eram perseguidos no início do século XX pela polícia – o negro com viola que fosse pego andando na rua com um violão era preso. Mas que com esse relativo acesso, cantou e encantou gerações de classe média, que passaram a buscar os mestres negros para aprender a arte do violão e instrumentos de sopro, como no caso de Sebastião Cirino – componente dos oito batutas, e que morou por quatorze anos em Paris – e a moça francesa que contratou seus serviços.

Essa inspiração buscava autenticidade de estilo, e que por muitas vezes foram taxados de influenciados pelo jazz americano, como ocorreu à música “Carinhoso” (1929), do compositor Pixinguinha. A ligação dos compositores com suas obras, neste período histórico, formavam a caracterização manifestações concretas e específicas de estilos que ultrapassa as influências quer africanas, quer ciganas, quer americana. Ora, esse emblema étnico significava disfarçar a opressão do preconceito. Diferentemente do que aconteceu com os negros nos E.U.A., na qual o negro não representava influência psíquica.

E com o surgimento e inauguração das Rádios, por exemplo, Rádio Brasileira, e sua disseminação, Rádio Cultura Brasileira, Rádio Casé, etc. Assim como as gravadoras de LP’s, como a Odeon, ajudaram a divulgar e popularizaram a MPB – Música Popular Brasileira, e seus mais variados estilos: polcas, maxixes, tangos, valsas, mazurcas, schot-tishes,... Até a gravação do primeiro samba em 1917, registrado coletivamente: “Pelo Telefone”. Assim como aparecimento de compositores/cantores/músicos que influenciariam gerações: Os 8 Batutas (1921), Turunas Pernambucanos (1927), O Bando dos Tangarás (1929), entre outros ícones – Noel Rosa, Ismael Silva, João Maximo e Carlos Didier, Orlando Silva,....

Obra de suma importância cultural, histórica e antropológica no estudo da arte, de dimensão e riqueza de fatos incríveis. Abordando a importância desse estilo – o samba – conclui-se que o samba não surgiu especificamente no morro, mas na zona sul, no contato interétnico. Resgatando uma parte da rica cultura e de construções musicais magníficas, que está aos poucos, sendo deixada para trás – pois quem detém esse conhecimento pouco divulgado está morrendo -, mas que em muito tem a ensinar às futuras gerações.



VIANA, Hermano. O mistério do samba. Cap. 1 e 7. Ed. Jorge Zahar. Ed. UFRJ, 1995

No divã: a Sociologia Brasileira






A maior dificuldade da Sociologia é a de ser encarada como ciência. Isto abre espaços para intelectuais de plantão, havidos em opiniões sobre diversos assuntos e sempre a disposição de outorgarem análises sociológicas na mídia. O que ocorre, conforme Guerreiro Ramos, é uma falta de uma ‘ortodoxia’ na metodologia do trabalho de pesquisa, facilitando o surgimento de sociólogos espontâneos – em exercício de uma sociologia espontânea ou empírica, conforme crítica de Pierre Bourdieu.

O autor relata os primeiros momentos de uma Sociologia Brasileira [ou do] Brasil, na qual seus primeiros pensadores transpunham as teorias de forma integral sem se preocupar que tais teorias foram forjadas em situações reais de seus países de origem. Para Guerreiro Ramos, surge então a necessidade de se pensar os países subdesenvolvidos embasados em sua realidade terceiro mundista. Propondo o autor, que “os critérios metodológicos, de caráter autêntico, não se elaboram por via dogmático dedutiva, mas empírico-indutiva”, de modo heteronômio, tendo-se a oportunidade de adequar a teoria a uma realidade que tenta sempre se equiparar com países de primeiro mundo, nunca com países da vizinhança latina. Logo, tendo como prática metodológica a redução sociológica, aferindo a teoria na aplicabilidade do objeto de forma que sua análise não fuja das especificidades locais. Na preocupação em buscar uma saída da falta de uma originalidade, e até da legitimação do campo de pesquisa no Brasil, com o cuidado de não burocratizar a ciência, observou que esta precisa estar e ser feita a partir de uma realidade nacional.

É certo que em determinadas circunstâncias históricas, quando da formação da USP e da URFJ, vieram para o Brasil, missões internacionais, com o objetivo de solidificar os intelectuais e seus campos de pesquisa, que para além da implantação metodológica resultou, conforme o autor, num ‘subproduto abortício’. Por isso, a critica de Guerreiro Ramos volta-se para a construção metodológica a partir de uma prática ligada a vida, se autoconhecendo e reconhecendo as estruturas nacionais e regionais – sendo que para o autor a sociologia deve ser construída obedecendo cada regionalidade, libertando destarte os especialistas de normas e metodologias inseridas nos textos estrangeiros.

Nestes termos, propõe sete teses, que são centrais na cartilha, de forma a mudar o que estava em debate no II Congresso Latino-Americano de Sociologia. Com as quais observa a aplicabilidade da ciência ligada a realidade, mas também a circunstâncias financeiras das instituições e da população, como aborda na terceira e quarta teses sobre recursos de pesquisa e nível cultura da população, com a intenção de fazer a sociologia, uma prática de resolver problemas em vias de melhorias de vida social.
Muito embora o autor tenha com essas teses riscado seu nome da historiografia sociológica brasileira, com certeza foram válidas e dignas de uma analise mais cuidadosa, ainda que estruturalmente as cátedras da época tenham sido fortemente contrárias, suas propostas ficaram marcando uma necessidades de se fazer uma sociologia de poucos para si mesmos, ou de poucos para os muitos excluídos de uma desigualdade social que se perpetua.

domingo, 25 de outubro de 2009

A questão de Gênero na Sociedade Brasileira




Os textos abaixo trazem temáticas particularmente únicas em seus eixos de observação, contudo, é possível detectar idéias congruentes nos três, na qual esta resenha propõe-se descrever pontuando e tecendo algumas críticas aos trabalhos em epígrafe.
Considerando a Sociedade Brasileira após a leitura e meditação dos mesmos, e levando em conta a historicidade da colonização e a dominação portuguesa, podemos compreender aspectos da organização social permeada por raízes de uma estrutura patriarcal, que se perpetua apesar das descobertas e avanços tecnológicos no setor de reprodução humana e medicina como todo.

Conforme o estudo da Dra. Maria Luiza Heilborn, que traça todo um perfil de contextos culturais de uma sociedade heterogênica e complexa. Faz um levantamento de entrevistas de indivíduos de classe média e popular. Visualizamos que homens e mulheres possuem seus roteiros sexuais próprios, muito embora padrões de comportamento sejam avaliados e cobrados pelos grupos de origem. Assim, a autora traz performances de vidas, detalhando até entre duas gerações. As diferenças que circundam uma mesma sociedade, que apesar de dividida por classes, os indivíduos ainda têm bem nítido valores de seus antepassados mais distantes.

A contemporaneidade vem com suas novidades tecnológicas como reprodução in vitro, clonagem, barriga de aluguel, DNA, [...] trazendo ao mirante dos debates referentes às praticas sexuais, que em novos contextos definidos como liberais pela vivência da sexualidade, que para a autora tornou-se imperativo de existência. Mas, entretanto, na visão de Darcy Ribeiro, essa liberdade sexual já era vivida na colonização, ainda que escancaradamente numa visão masculina e opressora do Brasil colônia, conforme sua obra: Povo Brasileiro. Para além da historicidade do fato, a autora Miriam Grossi, em sua análise, Identidade de Gênero e Sexualidade, faz uma leitura da aquisição de uma identidade de gênero mensurando sua constituição primariamente, num meio social. Nos quais, seus estudos abordam a condição feminina, dentre um período emblemático – os libertários anos 60 – até os anos dos enfáticos estudos de gênero, os anos 90. Neste ponto tanto os estudo de Grossi como os de Heilborn apresentam intrinsecamente o lugar da mulher dentro de uma sociedade heterogênica que vive duas opressões: a de classe e a de sexo.

Ainda que a classe média – conforme relatos da pesquisa de campo de Heilborn – viva sob influências tecnológicas e goze de certa liberdade quanto à iniciação sexual, é factível que essas mulheres passem por um ‘crivo social’, estigmatizadas por preocupações com DST/AIDS, gravidez, e ainda o desejo de um parceiro que esteja à altura de suas ansiedades; em seguida, as de classe popular, estão praticamente a mercê de seus primeiros parceiros, sendo estes futuros maridos, no entanto, nesta classe a prevenção de DST é simplesmente o isolamento com o parceiro fixo – o marido. Interessante notar: que ao homem (em ambas as classes sociais) é dado um roteiro de procedimentos completamente avesso aos das mulheres – embora as de classe média ainda possam escolher melhor seus parceiros, que as de classe popular – não muito diferente que há alguns anos atrás.

Os anos libertários trouxeram muitas ferramentas às mulheres, tais quais: a escolha de parceiros, de quantidade de filhos, menstruar ou não – inclusive no Brasil de hoje a mulher esta com menos filhos que na década de 60, um que de 1,2 filho por mulher pra 3,4 em quarenta anos! -, nesta nova dinâmica de vida e de ‘liberdade’, outro ponto em debate é a questão da fidelidade... Em 1997, a popularização da tecnologia do DNA pôs e ainda põe em dúvidas relações, circunstâncias, e o que é pior - traz mais dúvidas do que se propõe a resolver. Nestes termos, a autora Claudia Fonseca, em seu contundente artigo, estudou casos na Vara de Família em Porto Alegre, casos de indivíduos que procuraram a justiça para pedir o direito ao acesso ao teste, dos quais reflete o quanto a interseção das esferas médica e jurídica influenciam a família brasileira, sobre as relações de gênero e parentesco da sociedade contemporânea. E, do que a mulher foi lhe dada à oportunidade de algumas escolhas, e que até bem pouco tempo seriam impossíveis, aos homens foi lhes dado a oportunidade de assumir um filho de seu cônjuge e até mesmo contestar a paternidade de filhos dentro de uma relação aparentemente ‘estável’.

A antropologia tem dedicado-se a olhares em outras sociedades – tribais – e equiparando, menciona que há sociedades que a relação de pai e filho se consolidam através da alimentação e não pelo sangue ou sêmen. Assim, Fonseca da luzes a discussão dos custos/benefícios de um investimento do Estado que põe em cheque relações de pai e filho – que em alguns casos, questiona-se o valor de um pai biológico ou o social – e em conjunto com a despesa emocional dos atores principais e da família, o Estado de Santa Catarina chega a gastar cerca de 1 milhão de reais dos cofres públicos, em detrimento de razões diversas. Tais quais, não só infidelidade, ou preconceito de cor, mas legitimidade de herança, e ainda a busca de um suposto provedor para sanar circunstâncias de pobreza. Ora, segundo a autora, as políticas públicas voltadas para pais e mães solteiros resolvem muito mais, do que os resumidos 30% (trinta por cento) do salário mínimo que uma criança tem direito em caso de pensão alimentícia. Fonseca ainda conclui que essa ‘certeza’ traz mais dúvida do que tranqüilidade, arremato ainda, que essa dúvida está calcada em uma sociedade que ainda vela pelos princípios do patriarcado, prova disso, é que ainda que o teste traga a certeza dos 99,99% (noventa e nove, noventa e nove por cento), um homem aceitar um filho de outro chegar a ser tão honroso para mesma sociedade, que chega até a substituir, no novo relacionamento, a legitimação do casamento civil e/ou religioso.

Logo, estando os papeis bem distribuídos e atestadamente consolidados nesta sociedade patriarcal, conceber um terceiro gênero é quase inimaginável, para muitos – ainda é mais fácil entender como uma doença psicológica, ou qualquer outro prognóstico – entender a questão do homossexualismo ou homoerotismo – como trata Grossi. Em um trabalho importantíssimo que delimita conceitos de gênero e papéis de gênero descolado da de sexualidade. Entre os autores que Grossi dialoga de Françoise Héritier à Freud, confirma com a idéia de Heilborn de que o “gênero que dá a diferença entre os sexos determina social, cultural e ainda historicamente”, onde esses papeis se assume representativamente dentro do universo social que conforme Freud, “é o que se aprende e o que se entende nos primeiros três anos de vida” – a construção do simbólico.

Ainda que, com a propulsão que as descobertas científicas simbolizaram e são tidos por indivíduos com homoerotismo – a realização do sonho de viver em família com parceiro do mesmo sexo. Trouxe a pauta outras discussões, como o casamento e o reconhecimento deste como legítimo no civil perante a sociedade, e a criação de filhos nestes modelos – questionamentos que até bem pouco tempo inconcebíveis, mas que a esfera do direito e da medicina tem garantido a concretização dessas situações atípicas da modernidade.

Outrora, esses pares tenham se legitimado em face à essas tecnologias, e ultrapassaram a compreensão da reprodução humana baseada na dicotomia homem/mulher – tem-se a opção da reprodução in vitro -, para autora, “não existe um terceiro gênero, pois tanto homens como mulheres tem a possibilidade de se sentirem atraídos pelo mesmo sexo sem deixar de ser o que são”. Tacitamente, as raízes de uma sociedade patriarcal ainda são perceptíveis num mundo que ainda está neofitamente concebendo essas descobertas com as novas formas de organização e de direitos concedidos socialmente. E atordoado no turbilhão de acontecimentos, não temos respostas consolidadas o bastante para perguntas que ficaram no ar, por exemplo: partindo de que ponto de vista, essa dinâmica influencia ou não as novas gerações de homens e mulheres que estão vivendo num prisma de tantas possibilidades, e diferentes de seus antepassados, e ainda, quais os desdobramentos disso. Claro que serão necessários maiores amadurecimentos dessas reflexões, que até o momento só tem somente margeado da sociedade esses grupos em questão, e conquanto ainda para esta sociedade, a idéia de que são pertencentes ao estigmatizados grupo de risco, como portadores de doenças como DST/AIDS.


Referências:

HEILBORN, Maria Luiza. Construção de si, gênero e sexualidade. In: Sexualidade o olhar das Ciências Sociais. Rio de Janeiro. Editora Zahar. 1999.
GROSSI, Miriam Pillar. Identidade de Gênero e Sexualidade. In.: Antropologia em Primeira Mão. Universidade Federal de Santa Catarina – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. 1995.
FONSECA, Claudia. Artigo: A Certeza que pariu a Dúvida: Paternidade e DNA. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Professor: Sujeito Transformador



Caminhando pelas ruas do centro da cidade vemos tantos olhares tristes, desesperanças em pequenos rostos agredidos pela vida – crianças de rua - que dormem nas praças, nos cantos, nos bancos, cheirando cola, sonhando com uma vida melhor. Onde estaram seus pais? Serão domésticas, pedreiros, aventureiros da vida, do morro, da leste... Enquanto muitos garantem um pedaço de pão com a limpeza do pára-brisa, outros reclamam pelo brinquedo do ano passado, pela roupa fora de moda, pela falta do computador.

O que fazer para mudar?

Muitos pensam: vou deixar tudo como está pra que me preocupar!

Importante é o meu, o eu e já!

Assim, os imediatismos do sistema político tem sido um fator de grande contribuição para este quadro de deteriorização da civilização humana, mas tudo é aparente, e por isso os olhos já não os vêem mais, como se fizessem parte de uma paisagem, eles parecem cinza.

Contrariando essa situação temos as propagandas, que anunciam de tudo como um tudo que precisamos, ou ainda pretenciosamente precisamos - a cultura do ter: sou porque possuo isso ou aquilo, entre outros vários que poderíamos citar como a educação, da ‘educação’, e alguns pensam: ‘para eu ter ou ser doutor é preciso estudar’. Ainda que anunciem um mundo longe de ser o que conhecemos nos traz a notícia de sonhos que passamos querer. Logo, há a “educação” dos seres urbanus, pois se distingue da cidade, e daqueles que moram nas zonas mais afastadas dos centros urbanos. Ora, lá é preciso acordar bem cedo, pegar sua canoa e ir remando até chegar, muito cansado na escola, logo cedo a professora toma a lição, e de pronto o que chega não é a compreensão, mas a fome que assola pequenos corpos frágeis e por muito desnudo dos equipamentos da cidade e do estudo. E alguns acham que “não tem cabeça pra isso...”.
Todo esse quadro é conseqüência do enraizamento do passado, onde a era da “Belle époque” fixou nas mentes que estudo é pra gente rica, e não pra gente pobre.

Ainda que vozes clamem no deserto como a de Paulo Freire: “... O esforço de reformulação de nosso agir educativo, no sentido da autêntica democracia”, são como chuva numa floresta incendiada, não são o suficiente para apagar o fogo, mas já é um grande passo para a democracia. Termo esse tão usado, mas tão pouco difundido, nas mentes daqueles que realmente precisam saber. Nos nossos dias, é comum vê-los, quase nus, roubando, matando, contudo ainda pode ser feito alguma coisa – esclarecê-los.

A educação precisa estar para todos, mas num objetivo de formar mentes criativas, inovadoras, e não uma educação de palavras ocas do verbalismo inteligente, que ressoa por qualquer lugar, é bonita de se ouvir, mas de pouca eficácia, é excludente. Precisa ser envolvente, de fácil acesso, que roube essas mentes que estão tão voltadas para o crime, para o tormento da fome, e como dizia Marx: “o homem só alcança uma consciência social quando suas necessidades básicas são supridas”. Então comer será prioridade maior que educação? Não, os dois andam juntos!

Então para transformar o quadro desolador da humanidade, não podemos mais aceitar a política do ‘pão e circo’ para todos, mas a política social da educação para a formação básica de uma maioria faminta que não só de pão, mas de toda palavra vinda dos livros. Há ainda a necessidade de uma Revolução da “conscientização do patrão, que para não ser assaltado no sinal, precisa estender a mão, dando uma oportunidade para aquele que, impunha a arma, de ser alguém numa sociedade civilizadamente democrática. Logo, sem dúvida a conscientização, daqueles que não querem seus filhos cheirando droga num canto de esquina, ou nas capas dos jornais policiais” (Cristóvão Buarque). Mas que ainda há esperanças de mudar a herança da barbárie, de um país a caminho do desenvolvimento ou será subdesenvolvido, ou ainda emergente? Tem diferença? Vamos ao que importa: Contribuir para que surjam novos cidadãos conscientes, e não perpetuar o legado da miséria e da ignorância, mas fazer valer o que tanto se lutou na década de 80 – a Constituição Federal; para um Brasil, onde todos poderão ter enfim, orgulho de sermos chamados ‘filhos desta pátria gentil, pátria amada Brasil’. Por isso a importância da educação para todos [...], para um processo civilizatório e civilizador do metropolitano em seu contexto social integral. E da herança privilegiada que um ator nessa cena possui: O santo ofício de ensinar o educando.

Parabéns Professor, pelo seu dia! Você é o precursor de uma nova e esperançosa geração.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Uma questão de Cidadania



Manaus, assim como outras cidades efervesceu na década de 60, onde muitos acontecimentos marcaram aquele decênio: a ditadura e suas intervenções na Amazônia, a crise econômica, o surgimento de uma nova ordem político-econômica, onde era necessário “integrar para não entregar.” Fato é que os militares pretendiam ‘socializar’ o solo urbano com a elite agropecuária.

O debate referente às políticas públicas de gerenciamento de cidades teve como precursor o Seminário “Habitação e Reforma Urbana” (1964), que na qual originou um anteprojeto da CNPU – Conselho Nacional de Política Urbana, órgão do Ministério do Interior, com ajuda e apoio de técnicos e consultores progressistas. Entretanto, essa questão de organização dos espaços é um pouco mais antiga, nos remete lá pelas épocas do surgimento das vacinas, quando Osvaldo de Andrade militava a saúde para todos, neste período, também se discutia para além da saúde, os aparelhos urbanos, como instrumento para a contenção de pragas e epidemias na manutenção de “lugares públicos limpos”, para a preservação da saúde pública. Todavia, este diálogo se acentua com o Anteprojeto que fora engavetado. E que, somente em 1980, é retomado o debate com uma proposta de Reforma Urbana, fundamentando uma nova Instituição de Políticas Públicas. No ano seguinte, se torna objeto da campanha eleitoral de Brizola, com a seguinte proposta: “Cada família, um lote”, desengavetando-o. Logo, essa especulação política, abre novos debates para alteração do mesmo, entrando em conflito com o “Poder Público e a Especulação Imobiliária”.

Contudo, com a Constituição de 1988, promulga-se em forma dos artigos 182 e 183, estabelecendo diretrizes gerais da política urbana, a Lei 10.257, alterada em 10 de julho de 2001, onde recomenda outros encaminhamentos. Conforme seu capítulo 1°, art. 1°, no parágrafo único, podemos ver, como adiante escrito:

Parágrafo único. Para todos os efeitos, esta Lei, denominada Estatuto das Cidades, estabelece normas de ordem pública e interesse social que regulam o uso da propriedade em prol do bem coletivo, bem como do equilíbrio ambiental.

O Estatuto da Cidade é filho intelectual e ideológico do Estado de Bem-Estar Social, e sob moldes da democracia emergente, trás consigo a diretriz de uma gestão assim intitulada “democrática”, por meio de consultas à população, de representatividades das associações de vários seguimentos, o acompanhamento de programas e projetos de desenvolvimento urbano para o atendimento ao interesse social. Sendo que, seus modelos de políticas públicas – dois -, são o primeiro Redistributivo, que pretende capturar renda para financiar a ação pública, de maneira que equalize as condições habitacionais e urbanas da cidade, e ainda Regulatório, pois pretende a valorização da terra aos imperativos das necessidades coletivas; e o segundo é o Distributivo, que regulariza a questão fundiária, a urbanização das favelas, usucapião especial urbano, entre outros.

Apesar disso, o sistema público de produção e gestão da infra-estrutura de Estado teve o papel no aumento na produtividade do trabalho, assim como na aceleração e acumulação de capitais (investimentos internacionais), ao mesmo tempo em que melhorou as condições de vida. E todo o planejamento público voltou-se para ser pautado pelo valor de mercado. Emergindo o ponto nefrálgico e até sulfrágico, que é a relação que se estabelece entre o privado e o público, a partir, precisamente, do governo de JK. Com a abertura das portas para investimentos estrangeiros, o Estado adotou técnicas para compatibilizar as despesas com as necessidades, com a análise de custo/benefício, discriminando a “produtividade” das despesas em detrimento aos investimentos, assim, o Estado de Bem-Estar social sai de cena para entrar o Estado Gerencial. Ainda que, no Estatuto das cidades, na Seção X, art. 32, § 1°, considera consorciada o conjunto de intervenções (participação do privado), objetivando transformações urbanísticas para melhorias sociais e a valorização ambiental. Por outro lado, no mesmo período os circuitos mercantis e imobiliários passam por um processo de internacionalização de capitais, com o qual o Estado não mais compatibiliza dos mecanismos de produção e distribuição de riqueza, e com o Estado Gerencial se estabelece o Neoliberalismo.

Destarte, como Maura Véras cita em seu artigo: Sociedade Urbana: Desigualdades e Exclusão Social, a gestão política econômica ganha um dualismo atrasado/moderno, não integrado, que o rural x urbano delibera novas demandas, onde as relações econômicas e sociais são vistas inerentes ao capitalismo. Conseqüentemente a cidade capitalista dificulta o consumo e o acesso do pobre aos mecanismos institucionais da democracia. Deste modo, parafraseando, o clássico dualismo entre civilis e polis se reintegra as novas regras do jogo, onde os meios chamados coletivos de consumo mais excluem, confirmando a desigualdade sócio-espacial de desagregação da população.

Milton Santos apud Véras, aborda em sua abrangente obra, que a ocupação espacial confronta-se com uma nova questão o lugar, o direito das diferenças étnicas ao seu lugar de origem, lugar este que ganha dimensão patrimonial histórica, emergindo assim as mais variadas lutas e movimentos sociais, nos quais reclamam o seu lugar no espaço da cidade. No caso de Manaus, por exemplo, seria necessário que emergisse a cidadania, para reclamar esse direito indentitário de espaço de memória, onde várias etnias como índios e negros, reivindicam a redemocratização da sociedade.

Portanto, a pobreza se resignifica e ganha novas dimensões e até moral, tornando remotas as possibilidade de ascensão social, onde o discurso não mais constrange, mas pelo contrário, por um lado se repele, e pelo outro esse debate ganha dimensões internacionais na cobrança de políticas públicas que possam minimizar no objetivo igualdade do homem moderno, que perpassa pelo caráter de dignidade do ponto de vista político de ser reincluindo. Essas cobranças internacionais visam diminuir a migração para países de primeiro mundo, pois percebem-se a busca dessas políticas pelos imigrantes. Estranho é perceber que em Manaus, em comparação com outros centros, a elite Manauara se conforma e convive pacificamente com a sujeira, esgoto a céu aberto, entre outras características que estariam ligadas a pobreza, sendo visto como normal e rotineiro em áreas consideradas nober. A cidade estaria assim muito parecida com a Manchester que descreve Engels em seu tempo, cercada de lixo e animais soltos por todos os lados, e o pior que até em lugares considerado o metro quadrado mais caro da cidade, como Djalma Batista, pode-se notar as deficiências de um plano diretor eficaz.

A organização espacial e economicamente é concebida como uma aglomeração, no urbana, que percorre três etapas e logo possui suas respectivas conseqüências: I – O urbano na colônia como lócus do controle da acumulação do capital mercantil através da exploração do trabalho escravo, ou semi-escravo divide e distancia a cidade do meio rural, ou ainda industrializa, com o agronegócio, redefinindo-o. Tendo como conseqüência a industrialização com a formação da raiz dos nossos problemas da modernidade; II – A cidade como sede de parte da acumulação do capital mercantil, quando se desenvolve uma economia urbana no interior da economia agrário-exportadora, tem como conseqüência o bloqueio da formação da moderna cidadania; e III - A cidade da indústria, com dois sub-períodos: a) fase do populismo que estrutura a produtividade e orienta à base de bens salariais de consumo; e b) desenvolvimento associado, orientado para a produção de bens de consumo de luxo. Acarretando a constituição de poderosos interesses mercantis ligados à acumulação urbana – poder corporativo. Veridicamente conferidos nas audiências de ‘caráter público’ para o Plano Diretor de Manaus, no qual não teve uma divulgação efetiva, as ausências da sociedade civil e do Ministério Público se fizeram notórios, e seu desfecho se concentra em atividades que irão maquiar a cidade até 2014, sem a possibilidade de uma projeção além deste evento.

Nestes termos, o direito do pobre passou a ser pesado pelo Estado, transformando-se em “Custo Brasil” ou ainda Custo em obras de projeção a curto prazo, remontando a situação de obstáculo ao desenvolvimento e efetivação da democracia, e configurando na ausência de proteção social e da cidadania. Conseguinte, suas origens nestes processos urbanos são a difusão do neoliberalismo, o surgimento da mercantilização dos espaços e das condições de produção e reprodução da vida, a universalização dos serviços e desafios da transição do autoritarismo e ‘coronealismo’, para a democracia na sociedade brasileira. Desaguando nos mais famosos problemas sociais de países terceiro mundistas como o Brasil, nos quais, o crescimento desordenado da cidade em virtude a industrialização e migração, surgindo as favelas (novos bairros), ou ainda favelização de zonas centrais sem os devidos aparelhos urbanos de infra-estrutura, na nova cisão entre incluídos x excluídos, na qual o público é [in]devidamente apropriado pelo privado.

Cultura Bricolers


RAMOS, Alcida Rita. O pluralismo brasileiro na berlinda. Etnográfica. V. VIII, n.2 p. 165-183, 2004.




A autora divide o texto em duas premissas: a territorialidade e a homogeneidade social, para chamar a atenção para o caráter fictício de cada premissa, tomando foco o indigenismo no tocante a pratica que nega uma retórica oficial no Brasil.

Abordando as formas de colonização comparando as colônias hispano-falantes e as lusas, que a primeira teria formado um ethos e o estado em virtude das universidades terem sido implantas ainda no século XVI e a segundo somente no século XIX. Em sua analise histórica em conjunto com a formação do estado brasileiro aborda a habilidade de negociação na briga por território com soluções diplomáticas em virtude de vultos históricos como Barão de Rio Branco e Joaquim Nabuco, se bem que na pratica os índios tiveram grande importância na briga e proteção de fronteiras. Compara a diferença entre as relações internacionais do Brasil e outras nações citando o exemplo da dizimação do Paraguai – território assolado na Guerra da Tríplice Aliança. Nas negociações, o Brasil pagou para a Bolívia o território do Acre e prometeu a construção de uma ferrovia que ligasse os dois países e assim a Bolívia teria acesso à importação com mais eficiência do látex, entretanto quando ficaram prontos os primeiro quilômetros de estrada de ferro, o preço da borracha caiu no mercado internacional, tornando inviável aquela construção em todos os aspectos. Embora o apoio indígena no resguardo de fronteira, o índio sempre foi visto como que fazendo parte de uma paisagem.

Na segunda premissa – homogeneidade social – remonta o processo que instilou o vigor genético dos brancos que sobrepujaram outras raças, num processo de mestiçagem. E, citando Darcy Ribeiro, apresenta o conceito de uni etnia, que seriam formados por multi etnias tribais, que dependendo de determinadas ocasiões se condensariam em uma uni, mas em outras se afirmariam em uma plurietnicidade - uma ‘colcha de retalhos’ étnico que formaria um bricoler étnico, uma releitura da teoria das três raças.

Entretanto, num congresso entre juristas e antropólogos a autora que questiona a plurietnicidade da constituição brasileira, deparasse com o impasse do conservadorismo que constitui políticas assimilacionistas e ações segregadoras, onde desde o período da velha republica tem-se a primazia em proteger, para que possam ser integrados. Ainda que neste contexto, constatou o Double bind (duplicidade de amor e ódio) projetado no imaginário da nação – o silvícola tem seu lugar, diferente do que Darcy Ribeiro projetou – a indiferença. O corolário disso é o crescimento das militâncias que ganharam visibilidade nacional e internacional – Direitos Humanos, ONGs, ONU -, tornando-se preocupação para o congresso. Nestes termos, o Double bind a que a nação contribui para isso ao emitir suas mensagens contraditórias: 1) insiste na retórica de transformar o índio em cidadão brasileiro; 2) não toleram quando esse mesmo índio mostra interesse em se nacionalizar. Logo essa homogeneidade brasileira de raça é tão ilusória quanto sua democracia racial, prova disso seria a falta de representatividade de peso na política e no cenário nacional.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A Formação Social Brasileira



A formação do Brasil desde o descobrimento já traz arraigado na mente e na cultura de seus descendentes a dualidade social do “Sabe com quem está falando?”. E quando nos reportamos a Gilberto Freyre em Casa-Grande, é interessante quando é abordado o próprio preconceito dos europeus em relação ao português e ao espanhol, pela sua mistura com populações do norte da África. Neste sentido de mistura, o preconceito foi trazido e internalizado (pelos portugueses, entre outros), pois quando chegaram aqui acharam atrasadíssimos os aborígenes - índio (na fase ainda da pedra lascada), sendo este um aspecto importante para a formação social brasileira.

E pensando em sociedade brasileira, vemos em Da Matta o eixo que nos remete ao berço das relações sociais, esplêndido em leis universalizantes, margeada por uma moldura igualitária, imbuída de uma estrutura constituída de dois sistemas que se comunicam ambiguamente: a lei e o das relações pessoais. O que no princípio se caracterizou pela família rural – diferente da colonização espanhola e francesa – centrada na unidade de produção, formando uma aristocracia colonial poderosa. Ainda solidificada pelas diretrizes da igreja sendo o principal ‘cimento’ etnocêntrico católico. Que permeando todo o século XIX – em meados à abolição da escravatura – a dualidade (pessoa indivíduo) se estreita ainda mais, pois o negro e o índio não são constituídos, com a abolição, como cidadãos na sociedade brasileira, mas como restos humanos de uma sociedade que se pressupõe ser cidadã, quando se possui uma formação superior, um emprego no Estado (de caráter vitalício), isto para além de cor de pele e origem familiar.

E nesta dialética entre individuo e pessoa, vemos as sombras de personalidades que consigo trazem muitos, que para serem conhecidos e reconhecidos socialmente, necessitam impreterivelmente de mediadores – padrinhos, medalhões, etc. – ainda que para que isso ocorra, e seja comum e tido como uma ocorrência natural, a burlação de leis, onde a figura da pessoa é totalizada na identidade social vertical, de possuir uma ligação mínima se quer com as camadas sociais mais abastardas da sociedade, que conforme Da Matta, é caracterizada e constituída como uma sociedade semi-tradicional, holística, onde se particulariza a pessoa ao nível de biografia e se legifera por meio de leis globais, mascarando sua persona, ao ponto desta mascara ser tornar uma identidade social classificatória e preconcebida socialmente como uma marca que se leva a vida toda.

DA MATTA, Roberto. Sabe com quem está falando? Um ensaio sobre a distinção entre individuo e pessoa no Brasil. In: ___. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 181-206.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande e Senzala. São Paulo: Global, 2003, p. 65-155.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

As noções de contato interétnico



O autor concebe a introdução de seu ensaio com as correntes teóricas de maiores influências na antropologia brasileira, na qual a noção de fricção interétnica são basilares:

- A Britânica – Social Change Studies: na qual tem como principio o estudo das instituições em sua atuação umas sobre as outras, segundo suas respectivas naturezas, muito embora, conforme o autor, não tenha trazido para os estudos interétnico o melhor em esforços teóricos e metodológicos;

- A Francesa – Estudos de Situação: descrevem como choques raciais ou atritos entre civilizações, ainda que não examine as condições particulares, mas gerais, onde Balandier chama de situação de colônia;

- A Norte-Americana – Accuturation Studies: trazem as concepções de uma realidade racial cuja natureza é bem mais mascarada do que a de Balandier; Diz-se, que as diferenças radicais (língua/religião/costumes) são , por exemplo no Brasil, na situação do negro/branco atenuadas, porque o estado de subordinação e o preconceito não podem aparecer como fundados na natureza (alteridade), pois tais fenômenos anulam o passado colonial. Muito embora, o distanciamento das minorias – Brasil - configuram pouco peso político.

O autor se utiliza da situação de contato (Balandier - francesa), pois revela a fragilidade dos esquemas teóricos contido no trabalho de Malinowski. E da critica dos antropólogos britânicos nos aspectos sociológicos da vida tribal num esforço de livrar-se dos prejuízos culturalistas, como o desenvolvimento da abordagem funcional-estrutural deslocando da cultura para a sociedade.

Pautado no memorando do I Congresso de Antropologia de 1936 e de 1954, que para o autor trazem parâmetros para o processo de aculturação em complexo de relações entre Traços Culturais – para ele um documento fornecedor de indicadores sensíveis para a investigação etnológica, sem descuidar de aspectos sociológicos da conjunção intercultural, mas em escala, apresentou-se insuficiente.

As condições da fricção interétnica são - quando a cultura A é imposta sobre a cultura B:

1) Recrutar membros de B em posição de status;

2) Excluir os membros de B que desejem admissão as atividades em posição de status igual ou alto;

3) Obter admissão nas atividades de B em posição de status alto.

Conclusão do autor: a cultura B (a mais fraca/tribal) deve submeter-se em status baixo, aceitando às ordens e permitindo a admissão às atividades de A em status alto em sua própria atividade, ou seja, domínio completo de A sobre B.

A cultura e a sociedade, conforme Cardoso, trazem exemplos complexos e diversos que devem ser tratados com conteúdos específicos e ontológicos, sendo que sua crítica a escola norte-americana é que a visão culturalista pouco penetra nas estruturas cruciais do contato interétnico. Destarte, faz criticas aos reflexos dessas escolas nos trabalhos brasileiros, e até a pouca ou quase nula influência da escola alemã, na qual os antropólogos brasileiros só fazem repetir as idéias americanas e mesmo assim de maneira explanatória em nada analítica. Destaca o trabalho de Eduardo Galvão sobre as restrições que faz no uso do culturalismo, na analise dos Tupis, e exemplifica em seu objeto os Tenetehara, em sua forma de economia frente às influências ocidentais.

Enaltece o objetivo da antropologia, que para o autor não é apenas em descrever culturas indígenas, mas tentar alcançar à dinâmica e o funcionamento da transmissão e de mudança cultural. Convidando os antropólogos a analise dos processos de assimilação. Citando como exemplo, Darcy Ribeiro, ainda que o seu trabalho seja mais descritivo que teórico, no qual o objetivo descritivo o impediu de se aprofundar sobre o pensamento nacional e o tribal. Entretanto, qualitativo, pois aborda a experiência da interação biótica e ecológica, dizimação populacional como fatores chamados por Ribeiro de pré-aculturação. Provavelmente esse compromisso de repetir as escolas, seja qual for, possa ser o maior empecilho do desenvolvimento da antropologia brasileira, e por escrever em português ainda precisa de ‘muletas’ estrangeiras para caminhar.A preocupação especifica com os problemas de sobrevivência das populações tribais, falando conseguinte de outros aspectos da vida indígena.

A seguir, trata do imperativo da etnologia fornecer analises das circunstâncias de grupos, que paradoxalmente eram confundidos com o destino do índio em carne e osso.
O autor busca idéias diretrizes que poderiam nortear o estudo das relações entre membros das sociedades nacionais e tribais. Apontando as relações de oposição histórica e estruturalmente demonstráveis, mas contraditórias na tendência de negar uma a outra, característica do contato interétnico. A sobrevivência dessas sociedades após o contato, onde evoca as dimensões da realidade social, que melhor explicaria essa dinâmica de domínio e dominado dentro da estrutura de poder.
Cogitando as prováveis causas do contato como a progressiva perda da autonomia tribal e a ocupação de territórios indígenas, entre outros, foca a divisão de bens em detrimento a nova ordem social e econômica dentro da estrutura de poder. Quando o autor aborda a divisão social e as funções dentro da sociedade Tükúna, achei um pouco de “biologismo”.

E em seu ultimo capitulo tratou de fornecer as visões do índio e do branco, no qual o índio se vê com os “olhos do branco”, estudando as duas visões, possuindo em caráter mais descritivo com dados históricos demográficos e ecológicos

OLIVEIRA, Roberto Cardoso. Introdução: A noção de fricção interétnica. In: O índio e o branco.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

PARADA, UMA PARADA PARA PENSAR!




As paradas, as de ônibus, as do expresso (estresso como queiram), antes tão simples cobertura de telha vermelha e com bancos de cimento, aparente cobertura do sol e da chuva. Distanciadas com espaços de aproximadamente 500 metros entre cada uma, elas foram modificadas e ficaram com cara de shopping, com função de mini outdoors anunciam produtos, vendem idéias, produtos e uma infinidade de coisas . . . Essas novas armações metálicas são bonitos painéis de propaganda com vidro e luzes, mas tiraram a função da parada, que a princípio, era de proteger do sol e da chuva, enquanto espera pelo transporte urbano público, mas o que ocorre é que para além da beleza e modernidade que a nova parada proporciona, esta deixou de cumprir a que realmente veio.



Entretanto, há inúmeros bairros que nem possui esse aparelho urbano básico, expondo o usuário não só às intempéries do tempo, mas a sorte do motorista do ônibus parar no local, se ele souber que é lá o local, de parada. Em contraponto a isso, há lugares que possuem, mas que visualmente precisa de algo mais que promova essa “suposta” proteção ao usuário.

A meu ver, essas paradas poderiam ficar na posição contrária do que hoje são, entenda-se “de costas”, parece meio sem lógica, mas pelo menos nessa posição que aparentemente possa enfatizar um pouco de maluquice, explico o porquê dessa inovadora posição. Primeiro, da forma em que está posicionada, esta não fornece sombra, nem protege das chuvas com vento, e agora que o sol está muito forte é a mesma coisa que não ter. Segundo, quando chove as poças de lama que somos obrigados a enfrentar, nos dias de chuva forte.




Além desses problemas pontuais, agora com o novo plano diretor em andamento, a questão de mobilidade urbana é um item que a população deveria organizadamente propor melhorias, afinal, somos nós usuários dos transportes urbanos é que andamos quilômetros no sol atrás da parada de ônibus [. . .] E conforme os representantes da IMPLURB, preparem seus protetores solares, água, sombrinha, [ ... ], pois as paradas vão ficar mais distantes (o dobro do que é hoje ou quem sabe o triplo dependendo da localidade), serão instalados novos corredores de tráfego para os ônibus sanfonados. Justificativa: ônibus desse tamanho precisa percorrer maiores distâncias para não ficar pingando, ou seja, não passam da terceira marcha, no máximo na quarta. E assim preparem as canelas, pois para chegar ao compromisso na hora certa tem que sair mais cedo de casa, ou então andar muito, muito rápido. . .

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Artigo: Manaus, do Inferno Verde à Cidade das Oportunidades




Um olhar histórico

Desde sua colonização, a Amazônia tem sido descrita como o “Inferno Verde”, em virtude às histórias descritas pelos viajantes expedicionários, no início da colonização, tais como as historiografias feitas por padres jesuítas no início do século, que perpassam do ‘Inferno’ e vão ao ‘Paraíso’, constituído de povos sem conflitos que vivem da colheita de produtos naturais.

Entre os séculos XIX e XX, Manaus conhece o boom da borracha. Período em que a cidade atravessa por um significativo processo de modernização, como efeito da exploração da borracha, voltada para uma economia de exportação e de matérias-primas, dentre outros gêneros tropicais. Tornando-se a borracha em conjunto com o café, os produtos mais exportados do país. Vista como a “Cidade Fausto”, pelo imaginário local, que baseava em uma economia conservadora. Projetando a cidade em uma “Paris nos Trópicos”, na qual, o ciclo da borracha proporcionou construções de grandes monumentos, gerida pela elite local.

Conforme a etnografia de Wagley (1955), da cidade de Gurupá, que retrata uma comunidade relativamente livre de conflito, e unificada por uma cultura cabocla ribeirinha coesiva, na qual descreve uma divisão social constituída de uma classe alta branca, descendentes de ricos mercadores; classe inferior, formada de pessoas locais de ancestrais de raças mistas fazendeiras dos arredores; seringueiros locais e extratores de produtos da floresta, estes últimos vivendo em condições subumanas. Caracterizando o mosaico de uma sociedade polarizada, contrastada pelo boom-bust econômico no oeste selvagem. Nesta etnografia, em nenhuma das classes que Wagley estudou, se diziam caboclos, esta categoria estava plenamente marginalizada na cidade de Gurupá, por todas as classes sociais.

A queda da borracha no mercado internacional trouxe a cidade mudanças, passando de harmoniosa para cheia de contradições. Tendo como pedra de toque, a resistência a mudança de padrões existentes, resultando na estratificação de minorias locais, que se chocou com a cultura ‘afrancesada’, na qual reapropriaram os espaços para manter o controle das estruturas de poder. Na busca de uma reorganização diante da crise, a elite investiu nas casas aviadoras existentes, como saída econômica. Assim caracterizando a história de uma cidade que remonta sempre a política do “o por fazer”.

A militarização na Amazônia, na década de 60, visava atingir dois objetivos: estabelecer fluxos migratórios, aliviando os conflitos por terra no sul do país, e, explorar as riquezas minerais, com a criação de um mercado para escoamento de bens de produção. Assim, cumprir com diversos Planos Nacionais de Desenvolvimento como a Zona Franca de Manaus, que destinava a refazer e a reforçar laços na região em conjunto com o país, abrindo extensivamente para o capital estrangeiro. Este evento somente foi possível num governo autoritário, porque fazia parte da estratégia de rearticulação do sistema capitalista, o que exigia intervenção do poder público.
Em 1970, o grande ciclo – o PIM – estabelece-se, fazendo Manaus crescer extraordinariamente. E, juntamente com os 137.113 postos de trabalho oferecidos pelo PIM (Suframa 1989), surge dois tipos de ocupações, a mista – conjuntos habitacionais -, e as espontâneas – invasões -, esparramando a cidade no sentido leste, norte e ao longo das margens do Rio Negro.

Entretanto, antes mesmo da implantação do PIM, aparecem os conjuntos habitacionais de Flores e da Raiz, em conjunto com a ocupação dos igarapés, que a partir de 1970, passam por uma vigorosa transformação. Logo, essas intervenções estatais não foram capazes de absorver o contingencial populacional, ocasionando em periferização da cidade. Emoldurando uma situação, que depois da II Guerra Mundial, eclode na primazia reinante da região, que mudou em um curto espaço de tempo a paisagem da cidade. Expandindo o controle de fronteiras, a industrialização, conseqüentemente trouxe a precarização dos aparelhos urbanos, com a maximização da migração incentivada pelo governo militar.

A imagem rural que há muito se perpetuara no imaginário popular, e que ainda hoje é vendida como produto turístico, contrapõe a verdadeira realidade que nos deparamos: uma população emergentemente urbana. Constatada pelo Censo dos últimos quarenta anos. Sendo que, em 1960 somente vinte e três cidades possuíam mais de cinco mil habitantes, tendo Manaus e Belém como grandes centros. Entretanto, na década de 90 são cento e trinta e três cidades com mais de cinco mil habitantes e oito com mais de cem mil, chegando Manaus a aproximadamente doze milhões de habitantes. E por incrível que possa parecer, Belém passa por uma evacuação da população para cidades médias do estado, ou até mesmo, migração para Manaus. Nestes termos, a configuração muda completamente, sendo que muitas cidades antes isoladas, hoje, já possuem acessibilidade por carro via asfalto. A alteração do cenário Amazônico é eloqüente, perpassa a proliferação de médias cidades, chegando a capacitação das grandes para o status de metrópole e até tecnópole.

É através da história que se pode resgatar a trajetória das cidades Amazônicas, identificando momentos de sua modernização e de ocupação privada de espaços públicos. A priori a análise inicia com a observância das diferenças exorbitantes entre o Brasil – EUA – Europa. Comparando, os países anglo-saxônicos mesmo que sendo colônias, como por exemplo, os EUA, tiveram tratamento diferenciado quanto a sua ocupação. No passado, a corrida para a ocupação do Oeste da América, é um exemplo disso, pois quem chegasse lá demarcava seu território “até onde sua vista alcançava”. Nessas cidades, o subúrbio, é um local somente de moradias, sem casas comerciais, diferentemente no Brasil, a elite mora no subúrbio. Da mesma forma na Europa, onde nos grandes centros há localizações especificas para determinadas finalidades.

No Brasil, as terras sempre pertenceram a União, desde a colônia, tendo-se a permissão para cultivo, apenas, e não para posse. Isto, sem contar com os incentivos que milhares de migrantes colonos receberam para ocupar o país, logo após a libertação dos escravos. Estes últimos, mesmo libertos, sem ter ganhado nenhum tipo de instrução ou terra para cultivo, ainda permaneceram cativos do trabalho compulsório, e do preconceito. Ao contrario dos negros americanos, que com lutas adquiriram o direitos de ser posseiros.

Outro personagem que contribuiu para essa desorganização espacial, para além dos embates culturalmente firmados nas estruturas de poder, está o “taberneiro”, que começou a aparecer por todos os lugares, como uma saída para equalizar as diferenças na pirâmide econômica, que desde a colônia, vem se aperfeiçoando, tanto em nicho, quanto o caráter de comércio espalhado por toda parte, das cidades do Brasil.

As seqüelas do boom-bust, que a modernidade tem trazido, são desde as pretensas linhas de trem de Porto Velho (Madeira-Mamoré), chegando ao Shopping Amazonas, implantação de empresas como Jarí, Fordlandia, que com surgimento de investimentos internacionais, trouxeram um renascimento econômico, que no fim de suas efervescências, se resultaram em cidades fantasmas. Produtos de uma ocupação linear de fronteiras que fundamentou essas teorias.

Sendo assim, os sistemas de fronteiras, com as teorias de articulação são: a teoria tradicional que tende a sugerir mudança local articulada como força motriz, cuja dinâmica forma um modelo espacial. Da mesma forma a teoria econômica política enfatiza a articulação local, a penetração do capitalismo como o agronegócio, conseqüentemente provocaram embates políticos promissores nos últimos vinte anos, de povos que constituíram movimentos sociais, na busca de defender da ocupação privada, seus “territórios tradicionalmente ocupados”.

Assim, o reconhecimento que estamos numa região extremamente urbana, condiz à intervenção de políticas governamentais apropriadas nos equipamentos das cidades com os aparelhos urbanos, que, infelizmente, tentam seguir os modelos norte-americanos e europeus. Não correspondendo por causa da ocupação multiformemente desenvolvida. Pois, a configuração do sistema de assentamento na Amazônia é irregular, polimórfica, assimétrica quanto a sua organização regional do sistema de assentamento, desarticulada de qualquer princípio – híbridas -, caracterizando-se em encruzilhadas tecnológicas que ligam atividades específicas aos circuitos globais de informação e cambio.

Segundo, John Browder e Brian Godfrey (2006), descrevem caracterizando o estado de emergência dessas novas realidades, que são processos locais dinâmicos, complexos e ainda mal entendidos. Propondo princípios que constitui as ferramentas conceituais:

a) A Amazônia é um espaço social heterogêneo, que desafia sua classificação como tal;

b) Crescimento econômico caracterizado pelo boom-bust;

c) Desarticulação com a indústria regional;

d) Articulação com o comercio exterior, em atividades específicas;

e) A fronteira urbana é uma criação política contínua desarticulada do Estado controlador;

f) As categorias urbano/rural entram em desuso quando se pensa a Amazônia brasileira;

As metrópoles do norte

O ciclo econômico da borracha foi a grande mola propulsora que trouxe ares de modernidade para cidades do norte como Manaus, Belém e Porto Velho.
Principalmente no caso de Manaus, que situada no meio da selva a margem de dois rios não comporta um só parque florestal, aterra seus igarapés ou os deixa como veias a drenar o esgoto [...]. Nascida a partir do forte São João da Barra, revela a preocupação portuguesa com a conquista de territórios e apoio na defesa de fronteiras. Começa a surgir um povoado em volta sem o menor planejamento. Com a desativação do forte em 1783, no objetivo de transformá-lo em vila, o processo de reorganização econômica e política colonial, procede de forma linear. Não demorando muito para se formar o conjunto Grão-Pará, a Comarca do Alto Amazonas em 1833, conseguintemente, em província em 1850, seguido do boom da borracha e a implementação da navegação a vapor.

O glamour da “Paris dos trópicos” decai seu prestígio com a crise, derivada da queda da borracha no mercado internacional. A cidade sofre mudanças, passando de harmoniosa para cheia de contradições. Na busca de uma reorganização econômica diante da crise, a elite resistiu a mudanças bruscas nos padrões existentes, resultando na estratificação de minorias locais, que entraram em choque com a cultura afrancesada, onde reapropriaram os espaços para manter o controle das estruturas de poder. Investindo nas casas aviadoras existentes. A militarização da Amazônia, após a Segunda Grande Guerra Mundial, no objetivo de ocupar um grande território e desafogar a região sul de conflitos, integrando o norte ao comércio do restante dos pais. Entretanto essa ocupação desdobrou em uma periferização da cidade, na qual, onde as políticas públicas não absorveram o contingencial populacional, precarizando os aparelhos urbanos.

Da mesma forma, Belém é uma cidade ribeirinha caracterizada pelo contraste urbano e rural, baseada numa economia extrativista de riquezas naturais, onde as divergências do privado e do público emergem, evidenciando a mudança na representação social, da relação entre a sociedade e a água. Surgindo uma nova demanda no atendimento da vida na cidade. Nessa dialética do conflito e da modernização na superfície de Belém, protagonizaram os modelos de gestão portuária. Na estratégia de conceber novas geografias globais da economia, não respeitando limites territoriais na busca de competitividade, entretanto, os investimentos privados em infra-estrutura garantiram a sustentabilidade, mas transformaram o porto de espaço de uso público, em um espaço para atender demandas privadas do comércio de mercadorias. Essa trajetória, a priori, administrada pela municipalidade, teve interferências dos exportadores de borracha – entre outros produtos como minérios -, que dentre as décadas de cinqüenta e oitenta, privatização a gestão do porto. Estratificando o uso para apenas a movimentação de matéria-prima, assim não integrando o público e o privado locais, justificadas na participação de atores nacionais e transnacionais, detentores de poder na gestão dos fluxos do comercio exterior. Muito embora, hoje passe por um processo de evacuação populacional, a cidade ainda possui uma importante atividade portuária.

Porto Velho, não muito diferente das outras, advinda de forte, como ponto estratégico na defesa de fronteiras, tem sua função econômica baseada na agricultura e mineração. Originada de naturezas messiânicas e estratégicas na dinamização de um projeto para suporte logístico a construção de uma ferrovia, que segundo a descrição de Marcio Santos in Mad Maria, interligaria Rondônia ao comércio de países vizinhos: “... Eram as portentosas árvores que circundavam a praça e sombreavam algumas ruas centrais. Centro do salutar espírito do monopólio, o armazém, a tinturaria, o cinema, o cassino, os prédio públicos, os alojamentos, o hospital, pertenciam ao Sindicato de Farquhar (...) a ordem era mantida por uma polícia particular do Sindicato de Farquhar...”. A ferrovia Madeira-Mamoré, objetivou-se no escoamento da extração de borracha, madeira, entre outras matérias-primas. Tornando Porto Velho, a capital administrativa dos fluxos de capitais estrangeiros, na organização de grandes cenários corporativos como Jarí, Carajás e Tucuruí. Ainda que, tenham se gastando incalculáveis fortunas para a construção desta ferrovia, os investimentos em trabalho humano chegaram ao absurdo de importar mão-de-obra de diversos países, desdobrando em mortes, quer por causa da malária, quer por condições insalubres de trabalho. Rondônia teve sua grande fase de desenvolvimento, pós segunda guerra mundial, na década de setenta, com assentamentos rurais que dinamizaram a hegemonia com o interior, valorizando o setor comercial da capital na contínua e importante economia local. Nos últimos trinta anos, a industrialização chegou, mas não se compara com a que ocorreu em Manaus, redirecionando a população para os garimpos, resultando em perifização. Onde constitui uma incubadora de atividades econômicas na geração de empregos, sendo os bairros fonte de desenvolvimento de estratégias de participação local amplamente auto-suficiente.

Estatuto da Cidade: uma questão de cidadania

Na efervescente década de 60, muitos acontecimentos marcaram aquele decênio, como a ditadura, a crise econômica, o surgimento de uma nova ordem político-econômica. Mas sobretudo pelo debate no Seminário “Habitação e Reforma Urbana” (1964), que na qual originou um anteprojeto da CNPU – Conselho Nacional de Política Urbana, órgão do Ministério do Interior, com ajuda e apoio de técnicos e consultores progressistas.

Fato é que os militares pretendiam ocupar o solo Amazônico. Entretanto, essa questão de organização dos espaços é um pouco mais antiga, [...], nos remete lá pelas épocas do surgimento das vacinas, quando Osvaldo de Andrade militava a saúde para todos, neste período, também se discutia para além da saúde, os aparelhos urbanos, como instrumento para a contenção de pragas e epidemias na manutenção de “lugares públicos limpos”, para a preservação da saúde pública. Todavia, este diálogo se acentua com o Anteprojeto que fora engavetado. E que, somente em 1980, é retomado o debate com uma proposta de Reforma Urbana, fundamentando uma nova Instituição de Políticas Públicas. No ano seguinte, se torna objeto da campanha eleitoral de Brizola, com a seguinte proposta: “Cada família, um lote”, desengavetando-o. Logo, essa especulação política, abre novos debates para alteração do mesmo, entrando em conflito com o “Poder Público e a Especulação Imobiliária”.

Contudo, com a Constituição de 1988, promulga-se em forma dos artigos 182 e 183, estabelecendo diretrizes gerais da política urbana, a Lei 10.257, alterada em 10 de julho de 2001, onde recomenda outros encaminhamentos. Conforme seu capítulo 1°, art. 1°, no parágrafo único, pode ver como adiante escrito:

Parágrafo único. Para todos os efeitos, esta Lei, denominada Estatuto das Cidades, estabelece normas de ordem pública e interesse social que regulam o uso da propriedade em prol do bem coletivo, bem como do equilíbrio ambiental.

O Estatuto da Cidade é filho intelectual e ideológico do Estado de Bem-Estar Social, que com a política instalada de Getúlio Vargas e os governos posteriores, sob moldes da democracia emergente, trás consigo a diretriz de uma gestão assim intitulada “democrática”, por meio de consultas à população, de representatividades das associações de vários seguimentos, o acompanhamento de programas e projetos de desenvolvimento urbano para o atendimento ao interesse social. Sendo que, seus modelos de políticas públicas – dois -, são o primeiro Redistributivo, que pretende capturar renda para financiar a ação pública, de maneira que equalize as condições habitacionais e urbanas da cidade, e ainda Regulatórias, pois pretende a valorização da terra aos imperativos das necessidades coletivas; e o segundo é o Distributivo, que regulariza a questão fundiária, a urbanização das favelas, usucapião especial urbano, entre outros.

Apesar disso, o sistema público de produção e gestão da infra-estrutura de Estado teve o papel no aumento na produtividade do trabalho, assim como na aceleração e acumulação de capitais (investimentos internacionais), ao mesmo tempo em que melhorou as condições de vida. E todo o planejamento público voltou-se para ser pautado pelo valor de mercado. Emergindo o ponto nefrálgico e até sulfrágico, que é a relação que se estabelece entre o privado e o público, a partir, precisamente, do governo de JK. Com a abertura das portas para investimentos estrangeiros, o Estado adotou técnicas para compatibilizar as despesas com as necessidades, com a análise de custo/benefício, discriminando a “produtividade” das despesas em detrimento aos investimentos, assim, o Estado de Bem-Estar social sai de cena para entrar o Estado Gerencial. Ainda que, no Estatuto das cidades, na Seção X, art. 32, § 1°, considera consorciado o conjunto de intervenções (participação do privado), objetivando transformações urbanísticas para melhorias sociais e a valorização ambiental. Por outro lado, no mesmo período os circuitos mercantis e imobiliários passam por um processo de internacionalização de capitais, com o qual o Estado não mais compatibiliza dos mecanismos de produção e distribuição de riqueza, e com o Estado Gerencial se estabelece o Neoliberalismo.

Destarte, como Maura Véras cita em seu artigo: Sociedade Urbana: Desigualdades e Exclusão Social, a gestão política econômica ganha um dualismo atrasado/moderno, não integrado, que o rural x urbano delibera novas demandas, onde as relações econômicas e sociais são vistas inerentes ao capitalismo. Conseqüentemente a cidade capitalista dificulta o consumo e o acesso do pobre aos mecanismos institucionais da democracia. Deste modo, parafraseando, o clássico dualismo entre civilis e polis se reintegram as novas regras do jogo, onde os meios chamados coletivos de consumo mais excluem, confirmando a desigualdade sócio-espacial de desagregação da população.
Milton Santos apud Véras aborda em sua abrangente obra, que a ocupação espacial confronta-se com uma nova questão o lugar, o direito das diferenças étnicas ao seu lugar de origem, lugar este que ganha dimensão patrimonial histórica, emergindo assim as mais variadas lutas e movimentos sociais, nos quais reclamam o seu lugar no espaço da cidade. Emergindo a cidadania, para reclamar esse direito identitário de espaço de memória, onde várias etnias como índios e negros reivindicam a redemocratização da sociedade.

Portanto, a pobreza se resignifica e ganha novas dimensões e até moral, tornando remotas as possibilidades de ascensão social, onde o discurso não mais constrange, mas pelo contrário, por um lado se repele, e pelo outro esse debate ganha dimensões internacionais na cobrança de políticas públicas que possam minimizar no objetivo igualdade do homem moderno, que perpassa pelo caráter de dignidade do ponto de vista político de ser reincluindo. Essas cobranças internacionais visam diminuir a migração para países de primeiro mundo, pois se percebem a busca dessas políticas pelos imigrantes.

A organização espacial econômica de aglomeração urbana percorre três etapas e logo possui suas respectivas conseqüências: I – O urbano na colônia como lócus do controle da acumulação do capital mercantil através da exploração do trabalho escravo, ou semi-escravo divide e distancia a cidade do meio rural, ou ainda industrializa, com o agronegócio, redefinindo-o. Tendo como conseqüência a industrialização com a formação da raiz dos nossos problemas da modernidade; II – A cidade como sede de parte da acumulação do capital mercantil, quando se desenvolve uma economia urbana no interior da economia agrário-exportadora, tem como conseqüência o bloqueio da formação da moderna cidadania; e III - A cidade da indústria, com dois sub-períodos: a) fase do populismo que estrutura a produtividade e orienta à base de bens salariais de consumo; e b) desenvolvimento associado, orientado para a produção de bens de consumo de luxo. Acarretando a constituição de poderosos interesses mercantis ligados à acumulação urbana – poder corporativo.

Nestes termos, o direito do pobre passou a ser pesado pelo Estado, transformando-se em “Custo Brasil”, remontando a situação de obstáculo ao desenvolvimento e efetivação da democracia, e configurando na ausência de proteção social e cidadania. Conseguinte, suas origens nestes processos urbanos são a difusão do neoliberalismo, o surgimento da mercantilização das condições de produção e reprodução da vida, a universalização dos serviços e desafios da transição do autoritarismo para a democracia na sociedade brasileira. Desaguando-nos mais famosos problemas sociais de países terceiro mundistas como o Brasil, nos quais, o crescimento desordenado da cidade em virtude a industrialização e migração, surgindo às favelas (novos bairros), ou ainda favelização de zonas centrais sem os aparelhos urbanos de infra-estrutura, na nova cisão entre incluídos x excluídos.

Considerações
Destarte, os novos processos de modernização redefinem e inovam os espaços, segundo a racionalidade instrumental, sendo que, o conceito de espaço ultrapassa o significado de linguagem, e adquiri outro cultural. Ampliando-se para uma representação da ação do saber sobre o mundo e a sociedade [...], pelo efeito de sua representação recíproca e da sua reflexão teórica e pratica. Retratando hierarquias e processos de segregação social.

Nesta perspectiva, as relações sociais, econômicas, políticas e culturais que há nas cidades ribeirinhas, recriam novas formas de trabalho, transformando a natureza no uso de tecnologias avançadas no modo de produção. A pluralidade das situações encerra a diversidade da experiência social, na emanação de círculos culturais, pelos estigmas preconceituais, na necessidade de demarcar os espaços sociais. Assim, a cidade é onde acontecem as negociações, conflitos, sendo o espaço de manifestação e visibilidade, sendo que: permite entender as práticas sociais onde se dão de forma conectada a conflitos; o espaço é produção social e reprodução do espaço, que interpõe indivíduos entre eles mesmos.

Concluindo-se que, não coincide com o inventario dos objetos nos espaços, nem no discurso de sua apresentação, na qual a espacialidade oculta conseqüências que podem revelar formas e conteúdos espaciais que se transformam e/ou permanecem.

Uma etnografia da praça da matriz



Manaus, no período de sua elevação a província, nem parecia fazer parte do Brasil, porque aquele que fosse pego de outro estado por mais de dois anos sem se naturalizar amazonense, seria deportado. O comércio na década de 40 se localizava na Rua Eduardo Ribeiro, mas bem caracterizado e seguimentado, pois a padaria pertencia a um português, o comércio de miudezas e tecidos dividia-se entre judeus e turcos, e a construção civil era estritamente inglesa. Esta era a visão que se tinha quando se chegava em Manaus entre o período de queda do ciclo econômico da borracha e a movimentação para a implantação de mais um ciclo econômico: PIM.

Observando as características diferenciadas dos grupos ali existentes, busquei, segundo os moldes culturalistas, compreender os passos pelos quais aqueles indivíduos tornaram-se aquilo que são. Sabe-se que cada indivíduo tem em si tendências, mas a cultura a qual pertencem realiza a seleção. O grande arco das possibilidades humanas da Praça da Matriz subdivide-se em padrões culturais conformando os indivíduos aos valores próprios de sua cultura. Cada cultura apresentada traz uma personalidade que é estimulada em cada indivíduo que foi entrevistado. Segundo Ruth Benedict, o indivíduo é uma pequena cria de sua cultura, e, tomando parte nas atividades dessa cultura, as crenças, os hábitos, os valores, as possibilidades, enfim, os costumes de sua cultura serão seus.

Caminhando pela praça, senti o sol, que não dava trégua naquela manhã, no entanto, uma brisa fresca amenizava o calor e a sombra das árvores dispostas assimetricamente no que restava dos jardins da praça refugiava do calor dos que ali chegavam. Embora a manhã estivesse tão clara, o ambiente parecia nublado naquela área da praça. A maioria das pessoas olhavam como que intrigadas.

Observando mais profundamente o ambiente, percebi algumas mulheres sentadas nos bancos fazendo ponto e, segundo os depoimentos coletados de algumas pessoas que ali estavam, aquele lugar era um ambiente perigoso. Prostituição, roubos e furtos são comuns.

Alargando mais o olhar percebe-se que os indivíduos acumulados ao redor de toda igreja agrupam-se de acordo com as atividades que exercem para garantir a sobrevivência, mostrando feições culturais diferenciadas, formando um grande arco de possibilidades humanas: os hippies, os fiéis, os desocupados, as prostitutas e os vendedores, estes, formando o grupo dominante e ocupando maior espaço. São vários mundos paralelos que dividem o espaço e dividem estórias.

Investigando a vida comercial da praça, iniciando pela calçada atrás da igreja e chegando até a parte esquerda da praça, onde cruzam as ruas sete de setembro e rua da instalação, neste percurso encontramos dois grupos distintos de ambulantes: os novatos e os antigos. Os novatos – aqueles que possuem de meses até 1 ano ali trabalhando, localizam-se na parte posterior da igreja. Estes indivíduos ainda que muitos sejam amazonenses natos, são provenientes de linhagens familiares que migraram nos últimos trinta a vinte anos, alguns ainda trabalharam no PIM – Polo Industrial de Manaus – mas com as últimas crises tornaram-se um exército de reserva, sendo partícipes dos processos econômicos como Polany aborda in A grande transformação: “Uma economia de mercado significa um sistema auto-regulável de mercado, em termos ligeiramente mais técnicos, é uma economia dirigida pelos preços e nada além disso”. Assim como na fala de Dona Êna – Da Banca de Pastel - ela é paraense mesmo morando a 20 anos em Manaus e diz que “se tivesse condições voltaria para a terra natal de seus pais e avôs, pois está ali para trabalhar”; ou ainda o Sr. José, que há 15 anos trabalha na praça, em uma banca onde descasca castanha que vem do Rio Madeira, oriundo de Santarém, alega que lá onde morava não há emprego suficiente para todos, por isso veio para Manaus. Dessa forma, esses novatos não possuem um vínculo mais cultural com a praça além do econômico, entretanto, eles demonstram que o aproveitamento do espaço resulta na oportunidade de realização de novos negócios, que o comércio formal não mais oferece.

Assim como afirma Boas, “toda cultura tem uma tradição, uma essência e essa tradição podendo ser mudada, plural na sua essência, de alguma forma é um determinismo de comportamento num misto de símbolos e cores”. Observamos esse misto de símbolos e cores na efervescência que a praça representa, neste complexo cultural ali expressado em curto espaço geográfico. Demonstrando a pesquisa de campo na fala de D. Walkíria (45 anos), nascida em Portugal, mas que mora no Brasil desde os 5, em Belém, há 15 em Manaus. Veio a passeio com a família e por motivo de doença do pai foi ficando, encontrando uma maneira de ganhar a vida. Chegou a trabalhar no PIM, mas é na praça que se fixou, na qual além de uma oportunidade de trabalho o lugar é “um ponto de encontro entre culturas”, diz. Continuando nossa pesquisa, conhecemos o senhor Dulcino (55 anos), paulista, veio a Manaus há 23 anos a passeio e ficou trabalhando na praça há 8 anos, vendendo bonés, bolsas, fitas cassetes e bijuterias. Para ele o lugar possui uma significação de “seu dia-a-dia, vivência e ganha pão”.
Seguindo este raciocínio, com os ambulantes antigos, que tiveram a oportunidade de presenciar as mudanças geográficas e institucionais bruscas na praça, com as quais readaptaram-se ao meio para o contínuo da busca pela sobrevivência. Conforme Ruth Benedict (2006) quando cita “Nenhum outro problema social nos cabe mais forçosamente conhecer do que este, do papel que o costume desempenha na formação do individuo”. Confirmando-se no relato de Dona Solange que hoje tem uma banca de langerie – parintinense – descendente do ciclo da borracha, sendo herdeira da 3a Geração de indígena. Veio para Manaus para ganhar a vida – aos 20 anos – começou vendendo café nos barcos, frutas para os viajantes, e conseguiu uma banca na praça pra vender calcinhas. Quando mais jovem, freqüentava a praça para namorar – “tinha flores, e um mini-zoo”, relata – na qual chamava as pessoas ao passeio. Nesse tempo havia uma pequena cerca para proteção da grama, cerca de 60 cm, e com a resolução do padre nos últimos seis anos em cercar a praça, trouxe muitos desentendimentos entre a igreja e ambulantes. “Não gosto das grades atuais”, comenta. Por seguinte, outro personagem da praça, que trabalha lá nos últimos 30 anos, é o Senhor Jorge – amazonense – trabalha com fotografia na praça – fotos exóticas, como por exemplo de uma cobra de 15m que engoliu um índio ––, descendente de caboclos coletores de produtos naturais e agricultura (linhagem negra). Ele chegou a trabalhar na praça antes e depois das grades, ficou na primeira escada, próximo da Via aquário. No início era somente nos fins de semana, enquanto que na semana trabalhava no PIM. Relatou que antes as bancas eram simples, e que depois a prefeitura padronizou para as atuais bancas, o posto policial e o ônibus do judiciário conseguintemente, mas que na prática não adiantou muito, a corrupção, a violência, e a conveniência com a bandidagem continuam.

Naquele ambiente cosmopolita em meio a divergências gritantes uma unidade os inclui: a busca de uma vida melhor, a luta pela sobrevivência. O todo existente é formado por segmentos. Cada grupo vive a sua verdade e no panorama global configuram os indivíduos que seguem caminhos diferenciados. As atividades exercidas pelos indivíduos, sua forma de trilhar os caminhos da vida, de estabelecer comunicação, a relação com o outro e com o mundo espiritual deixa claro a variação cultural observada e cada uma dessas culturas é fruto de processos sócio-culturais, psicológicos, históricos e geográficos únicos.

Os personagens entrevistados apresentaram normas de conduta estimuladas pelas instituições às quais estão submetidos. O modo de vida, suas virtudes, a capacidade de lutar pela vida, suas histórias, alegrias e frustrações, suas culpas, sua religiosidade são apreendidos na ordem social da qual estão fazendo parte. “Tais comportamentos não podem ser instintivos no sentido de que os seres humanos possam nascer com esse conjunto de instintos responsáveis por suas ações. No entanto, isso não os regula inteiramente, pois seguem veredas distintas marcadas por seus objetivos, finalidades e pela forma como concebem o mundo (Benedict, 2006)”.

Na análise do trabalho etnográfico feito em equipe, concluímos que o legado indígena e nordestino, que povoaram a cidade e os seringais amazonenses, conforme informações de historiadores, está nitidamente retratado no ambiente da Praça da Matriz. O jeito de ser amazonense freqüentador daquele espaço geográfico pode ser observado nos traços biológicos e nos costumes dos entrevistados. Os produtos artísticos (artesanatos) e alimentícios (tapioca, tucumã, peixe frito, a farinha, pamonha, baião, pirarucu de casaca, cocada, tacacá, etc.) que são comercializados retratam as origens do cocar e da poronga que constituíram dois reinados distintos. Muito embora tenhamos encontrado ainda afro-descendentes dentre os camelôs, que se assumem com tal e são reconhecidos no seu meio.

Entretanto, dentre as pessoas entrevistadas, ainda que com alguns traços biológicos indígenas e ou ainda com costume que identificamos como tais, nenhum deles assumiram identificar-se como indígenas. E quando perguntamos se o entrevistado possuía algum parente indígena, ou ainda descendência, ouvimos a seguinte pergunta: “Em que sentido você quer saber ?” . Partindo dessa indagação, ou contra-pergunta, entendo que a essência da praça não é indígena, pois além do preconceito visualmente declarado, vi o problema que Viveiros de Castro relata em sua entrevista: “...o problema das etnias submergentes, daqueles coletivos que estavam seguindo, por força das circunstâncias...”. E junto com o problema, a problemática de se saber afinal quem é índio, sendo aquele que se reconhece como índio, e que em sua comunidade o reconhecem como tal, e este indivíduo possui histórico, sócio-politico e cultural indígena para ser identificado como índio. E, infelizmente não encontramos ninguém que se ‘enquadrasse’ nesse conceito, apenas descendentes de terceira e quarta geração, e serão estes considerados índios? Será então que são índios civilizados? Seguindo o entendimento do culturalismo da escola americana, acredito, ser no mínimo incoerente. Pois, pelo pouco tempo de campo que dispomos, nos constrange a não fazer afirmações sem antes ter um estudo com mais fontes de parentesco, pois analisamos somente as linhagens. E linhagens estas que conforme estudo seriam as principais: brancos, índio e negros, caboclos considero como resultado da miscigenação e dos atritos interculturas. Conforme Boas e suas discípulas, vemos na praça a corrida pela sobrevivência diária, num espaço reduzido, onde todos tiram o melhor proveito para ganhar alguma coisa, seja o artesanato, as moças que fazem ponto e até o posto policial, onde os guardas ganham um ‘troco’ soltando malfeitores. E esse jeito de tirar o melhor proveito de tudo e de todos, é marcante do europeu. E não estou reduzindo a essência a um aspecto econômico, puro e simplesmente, pois você não será um verdadeiro ser humano, a menos que suprima essas tendências – a tal pressão social, segundo Mead (2000). Assim, observei que essas pessoas foram treinadas para possuírem uma personalidade agressiva, para dominar as personalidades submissas – seleção natural – destarte como todos nós que vivemos nessa corrida cosmopolita pela sobrevivência. Sendo claro, que conforme Benedict (2006), a essência é o que na realidade liga os homens é a sua cultura – as idéias e os padrões que têm em comum.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Movimentos Sociais




Os movimentos sociais, no Brasil, mais precisamente após a ditadura, tomaram forma principalmente após o governo de Juscelino Kubitschek. No momento político em que o Brasil estava abrindo as portas ao neoliberalismo, em que assume uma nova postura governamental diferente daquela do governo getulista – passando de bem-estar social para o gerencial. A população transformada de cidadãos com direitos concedidos pelo Estado para consumidores em potencial, compôs uma nova realidade. Destarte, o destaque inicial dos movimentos sociais populares urbanos foram as reinvidicações de bens e equipamentos coletivos de consumo e questões ao redor de moradia, usualmente articulados territorialmente ao nível de bairro ou região.

Com o passar do tempo, os movimentos sociais tiveram os seus fluxos e refluxos na realidade. Caracterizando-se pelas especificações de foco: pela liberdade, pela luta cultural das etnias e raças, pela nação, e ao mesmo tempo pelo lugar, pela terra e pela vida. Todavia, esses movimentos tentam sempre dar universalidade às demandas particulares, buscando fazer política, vencendo os desafios dos localismos, priorizando a cidadania.

A participação cidadã é norteada pelo amplo conceito de cidadania, que é, em sua concepção, o direito a vida como um todo. Na construção objetivada de uma democracia radical, sem desigualdades, exclusões de quaisquer natureza. Na égide da ética na política, os movimentos sociais expandiram sob segmentação de vertentes cada vez mais diferenciadas. Enfatizando ao longo dos anos 90, surgindo o terceiro setor – ONGS -, aliada do governo, para atender a necessidade de serviços sociais.

Dilatando assim a percepção da população quanto a emergência da participação popular na mobilização para sensibilizar o Estado na contra mão de interesses no campo da política. Logo, a modernidade se constitui de duas formas: a racionalização e subjetivação, sobretudo quanto a subjetivação como caráter identitário na mobilização de demandas em âmbito cultural, político e social.

A mobilização estudantil, realizada durante esses últimos vinte anos, efetivou-se um marcante diferencial dos movimentos sociais, tendo como protagonista a classe média. Assim como no movimento cara-pintada, para a retirada do presidente da república na época, Fernando Collor de Melo, hoje com a luta pela a permanência do direito das 120 passagens, o movimento constitui-se historicamente autêntica, quanto a sua busca por direito constitucionalmente adquirido. Ainda que, a população manauara esteja engatinhando na concepção de cidadania participativa, não se pode conter-se pelas dificuldades, mas avançar, pois sem luta não há vitória.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

SBPC e a Comunidade Amazonense Científica



Entre os dias 12 e 17 de julho do corrente ano, recebemos no campus do ICHL - UFAM, o Sexagéssimo Primeiro Simpósio Brasileiro de Progresso e Ciência. Ocasião de grande euforia entre palestrantes e expositores advindos das diversas áreas do Brasil.



Instituições como a FAPEAM, Nilton Lins e as Forças Armadas marcaram presença nesta festa. Um momento único, em que recebemos cientistas de diversas áreas num diálogo, que nestes dias apresentaram suas pesquisas, e oportunizaram momentos de lazer, cultura e conhecimento.



Oportunidade ínfima na troca de conhecimentos, parcerias, no mundo da pesquisa em outras regiões. Entretanto, embora encontremo-nos em período de férias, os alunos de diversas faixas etárias poderam compartilhar e marcar presença nesta grande convenção de conhecimento, com alunos de instituições de outros estados da federação.


Ainda que o fluxo de pessoas tenha sido intenso nesses dias, a academia se portou de maneira parcimoniosa e tacanha, de fato que, para além das palestras realizadas em ambientes fechados de auditórios, na qual a presença de pesquisadores de fora se fez massificadora. Reflito sobretudo, a presença do Departamento de Ciências Sociais, nos grupos de discussão, nas apresentações... aquém com certeza, na efetiva reflexão da grandeza ímpar de sediar um evento, como este, que destarte nos foi concedido nestes dias.