domingo, 28 de junho de 2009

A Dinâmica do Trote




O Ritual de ingresso na universidade é uma prática que há muito se mantém durante os séculos. Trote estudantil (ou simplesmente Trote) não é uma cultura brasileira, mas adquirida de Portugal, que consiste em um conjunto de atividades, que podem ser leves (brincadeiras) ou graves (humilhações ou agressões). Na qual, os filhos dos grandes produtores de café trouxeram. Costuma ocorrer nos dias de calourada (que acontecem primeiro semestre do curso) em escolas, faculdades e universidades pelos estudantes mais antigos (denominados veteranos) nos recém-chegados (denominados calouros ou bixos). Porém o trote também costuma acontecer na escola depois da calourada, principalmente nos calouros que não compareceram à ela. É um festival de coisas que voam nos calouros, desde ovos, café, trigo, lama, e conforme a imaginação dos veteranos.

Na ocorrência deste fato social, todos participam direta ou indiretamente, diretamente aqueles que são os veteranos na mobilização, no levantamento de materiais e no apoio de professores para sua concepção; indiretamente, aqueles que assistem ajudam a aumentar a balburdia, rindo tirando fotos do resultado em que ficam os calouros. Momento de grande euforia de ambas as partes dos que tentam escapar – e até conseguem – e dos que coíbem para a excelência da realização.

A priori, podemos entender que é a própria irracionalidade no meio da racionalidade, segundo Weber, pois num meio em que emana toda a sistematicidade da racionalidade do saber e da pesquisa acadêmica, e num curto espaço de tempo, passa de um extremo ao outro, configurando a ação de indivíduos que estão se formando para ocupar os mais diversos cargos de nível superior, para com neófitos que está adentrando uma nova realidade – a de ser universitário. Portanto a justificativa desse fato deva caber no que Weber diz: “uma coisa nunca é irracional por si mesma, mas de um particular ponto de vista racional”, ou seja, quem recepciona o que chega ao ambiente universitário, seja correto deva passar uma ‘ritualística’ que marquem essa transição para o resto da vida.

Essa ruptura de sair do ensino médio para a universidade possui suas fases, na qual se inicia no primeiro ano até a formatura no terceiro ano do ensino médio, passando pela preparação para o vestibular/Enem, e por fim a saída do resultado da lista dos aprovados, conseguintemente o primeiro dia de aula.

Entretanto, vê-se como uma cultura extraída de meios internacionais, em contato com a localidade teve suas adaptações e redimensionamentos estruturais quanto a sua execução e materiais utilizados para atacar os calouros. O que na Europa a brincadeira se passa de forma cada vez mais pesada. No Brasil, tem-se a variante do trote solidário, na qual os calouros contribuem de alguma forma com entidades de ajuda ao necessitado, ou ainda uma visita a um asilo e ações semelhantemente sociais.

Mas há aqueles que gostam da sujeira e do mau cheiro, e em casos extremos – a morte como conseqüência da violência –, que os calouros exalam após o acontecimento de um ritual dessa magnitude. É de se notar que no momento de tal execução, não apareça nenhum representante da instituição ou mesmo coordenação de qualquer curso para por fim nessa situação, até porque se sabe que uma maioria apóia a prática deste e sendo assim, o que parece uma omissão simplesmente é a conveniência para a realização do fato dentro do espaço do saber – o campus.

Ainda tem como analisar esse evento com a cismogênese. Evidenciamos aqui a participação dos que proporcionam e dos que se submetem, a princípio, pode ser por curiosidade e conseguintes por outros motivos que vão da influencia dos veteranos à pura curtição. Destarte, quanto mais os veteranos buscam em cercar os calouros e por seguinte envolvê-los com o ‘ritual’, mais e mais eles se submetem formando o que Bateson (2004) chama de cismogênese complementar.

A cultura que antes era praticada pela elite nos tempos da colonização, hoje contemplou sua pratica no mais diversos lugares proporcionando uma nova dinâmica àquilo que antes figurava um momento único de aluno de uma determinada classe social. Logo, a modernidade traz consigo o sincretismo, que não é uma aculturação, mas uma condição sistemática e política, pois é na verdade a emergência de uma cultura que foi absorvida e/ou readaptada por outra (mito), se tornando uma terceira, dinamizado pela estrutura social e a conjuntura histórica.

terça-feira, 16 de junho de 2009

O Dom





Dentre as etnografias estudadas por Marciel Mauss, as da Ilha Andamam, trazem as características dos presentes envolvidos no processo de poltlatch que são: Auto-suficientes em matéria de ferramentas; Não servem com a mesma finalidade de comércio, assim possuindo um fim moral. Produz um sentimento de amizade entre as duas pessoas envolvidas, na qual ninguém é livre para recusar. Procurando concorrencialmente, sempre superar uns aos outros, tanto na quantidade de presentes, como no valor, conseqüentemente pode transformar-se em tabu.

Nas Ilhas Melanésia e dentre outras, Mauss procurou verificar os princípios, razões e intensidades das trocas de dádivas, que os neocaledôneos, por exemplo, apresentam um sistema de festas e prestações de serviços (pilou-pilou), que caracterizam essas redes de relações, como o poltlatch. Nas Ilhas Trombriand, segundo Mauss, o kula é um tipo de poltlatch, onde objetos de uso, alimentos, festas e os indivíduos seguem um ritual, e dentro desse movimento circular regular, deixa de ser uma simples troca econômica de mercadorias úteis/escambo, sendo que o kula possui dois aspectos, o inter e o intra tribal. No inter, se começa com uma visita sem compromisso, mas com a finalidade de conquistar bons parceiro. Na intra, acontecem uma espécie “feiras e exposições”, aonde os produtos, através das linhas de parentesco, chegam ao chefe da tribo, voltando às vezes para o mesmo dono no mesmo dia, no entanto, possuindo – Kiriwina – os objetos do kula identidade própria e simbólica no ritual com aspecto religioso, no qual o ritual tem todo um texto metafórico, que proscreve o caráter dos objetos.

Na abertura, se não se tem um presente que atenda as expectativas, é dado outro de menor importância para fechar, usando artifício de sedução para se obter bons parceiros – credor/ex-doador. Nos rituais de funerais, nas colheitas – Wasi – os agricultores trocam cestos de alimentos por cestos de pesca, na sua abundância. E por uma tradição religiosa, são as dádivas oferecidas aos deuses em agradecimento à colheita e os serviços prestados pelos homens no casamento a mulheres são visto como salário destas. Em outras sociedades Melanésias, que possuem moeda – Fiji – os dentes de charlote, e na Nova Guiné o tau-tau, ambas tipo de moedas também utilizados pelo trombriandeses, sendo que dentre outros relatos (Thurnwald), essas moedas por vezes são cobres brasonados de crença importante no culto, que possuindo identidade própria, traz riquezas e boas alianças, além de atrair dignidade, honrarias e possessão de espíritos. Praticantes ainda uma espécie de penhor, ainda que não saibam emprestar nos termos como é empregado nas sociedades ocidentais.

A honra e o crédito no noroeste Americano, exprime a obrigação, que de maneira mítica, imaginária, simbólica e coletiva, a aliança que elas estabelecem num ritual solene. Dispondo-se em regime de frátrias, com descendência uterina (feminina) e masculina. Em outras tribos há sociedades secretas de homens e mulheres, (prestações simples) sendo a riqueza distribuída em forma de poltlatch. Segundo Boas, o Poltlach é o sistema de endividamento público que corresponde ao crédito e assegura bens para os filhos e órfãos, uma forma de garantir “heranças” para gerações posteriores. Baseando-se neste conceito de crédito, outros autores acreditavam ser invenção de civilizações modernas ocidentais. No entanto, o consumo e a destruição são sem limites (gastar/não conservar), como num “campeonato”, para fazer o rival calar. Logo, o prestígio vem em detrimento ao mana – riqueza, autoridade (Polinésia), ou seja, a quem mais esbanje riqueza e proporcione a outros bens de significação pessoal. Assim, os homens souberam empenhar seu nome e sua honra antes mesmo de saberem assinar.

O Poltlach possui diversas dimensões que são religiosas, mitológicos, xamanísticos, econômicos, fenômeno morfológico social. Além de ser um reconhecimento militar, jurídico, religioso em todos os sentidos, conforme as formas de poltlatch no noroeste americano, são descritos estes tipos: a) entre fratrias e famílias dos chefes (únicos em causa) - Tlingit; b) fratrias, clãs, chefes e famílias (o mesmo); c) chefes que se enfrentam por clãs - Tsimshian; d) Chefes e de confrarias (Kwakiult). A essência do poltlach é Dar, por si e pelos membros de sua família, elevando o prestígio seu e de sua família no demonstrar riquezas, distribuindo-as, colocando os outros a sombra de seu nome. Convidando quem tem posse, consente e vem assistir a festa do poltlatch, se não convidar as conseqüências são funestas. O não Receber é manifestar que se teme retribuir, e conseguinte perder o peso de seu nome.

Na tribo Kwakiult, depois que se é reconhecida na hierarquia de vitórias no poltlatch pode-se recusar sem guerras, ainda assim é feito um ritual de recusa. Retribuir é todo o poltlatch (imperativo), que deve ser com juros de 30% a 100%, em cima do que foi recebido, sob sanção de se tornar escravo.

Há virtudes nos objetos que figuram as dádivas onde compreende duas dimensões os objetos de consumo e a partilha em comum, no qual esses objetos de venda e coisas preciosas de família, que podem representar a identidade da tribo diante um deus totêmico e herança de família.

O princípio de troca-dádiva deve ter sido nas sociedades que ultrapassaram a fase da prestação total, entretanto, ainda não chegaram ainda ao contrato individual puro e ainda não possuem noção mercadológica do dinheiro, como nas civilizações ocidentais. Muito embora, possamos ver o dom nas relações ocidentais, como casamento, relações familiares, e sobre tudo os meios sociais nos quais estamos inseridos.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A personalidade da Cidade


Fonte: trytomoveme.blogspot.com



Partindo da racionalidade que eclodiu no século XVIII, o século do Iluminismo, o homem passou a racionalizar e a se questionar sobre tudo o domínio exercido pela igreja desde então. Este mundo teocêntrico deixou de responder às novas questões e buscou-se a liberdade com a quebra dos elos com a Igreja, o Estado, a Moral e a economia de subsistência. Impulsionado por essa busca incessante por liberdade propiciou um distanciamento entre a cidade e o campo, que até aquele período não estavam tão claros. Fundamentando a vida com novos sensores psicológicos, em detrimento com a aplicação de novos estímulos na cidade, diferentes do que se tem no campo.

A medida que o homem saiu do campo em busca de melhores condições de vida na cidade, e conseguinte tendo contato com outro tipo de aglomeração de pessoas, novas tecnologias – assim como o acompanhamento e o desenvolvimento dessas – tornou-se partícipe da dinâmica economicista da cidade, na qual, a vida gira em torno da pergunta: quanto?

Nesta codificação econômica e monetária da produção e reprodução da vida do homem metropolitano – o que negocia com todos ao seu redor – este individuo absorve uma nova dinâmica muito mais funcional e especializada, do que a tinha acesso no campo.

O contato deste individuo com a racionalização ao extremo da vida, o envolveu com novas características opostas ao do individuo do campo. Enquanto o individuo do campo reage pelos sentimentos, numa vida ligada a uma comunidade local, onde a natureza destas relações baseiam-se na pessoalidade, na vivência com o compadrio, e as necessidades da comunidade se sobrepõe ao individuo. O camponês, diferentemente do metropolitano possui uma vida simples, com regras de vivência mais frouxa e inconsciente. E seu poder econômico está ligado a terra, na preocupação exclusiva de manter e cuidar a família, sem correr riscos.

Ao contrário do camponês, o homem metropolitano, reage pela razão, é individualista e muito competitivo, levando em consideração todas as áreas de sua vida. No seu dia-a-dia, conduz de maneira impessoal e distante dos outros que estão a sua volta. Intelectualista, respeitando sempre rígidas regras de convivência social.

Entretanto, possui duas características singulares, avessas ao camponês. A prosaicista, que o apego a tudo que é material – materialismo; e a Blase, que é a firme indiferença com o outro, parafraseando Simmel. Sua relação econômica, psicológica, está ligada ao capital-industrial-financeiro, sendo muito importante para ele a economia do “ter”, para ser reconhecido diante da sociedade, que é a do “ser”, como filosofia de vida.

A cidade madura industrial, em Weber, caracteriza-se pela racionalização da vida política e econômica na cidade. Com a qual possui uma sede administrativa-politica-jurídica. Com sua devida regulamentação através de Estatutos – surgindo o Direito Civil – entre outros direitos, que o homem da cidade passa a ter – é se tornar cidadão, e não mais um mero camponês.

A autonomização da vida moderna, ganha em cada esfera mediante a intelectualização do mundo Racional-Legal. Conseguinte, a formação dos Estados-Nação, com a padronização da língua, de uma bandeira e cultura. O surgimento do exército nacional para defesa de fronteiras, em conjunto com a política militar de diplomacia entre reinos, em obediência a interesses políticos.

Na economia, a padronização foi extrema, pois desde pesos e medidas, moedas, taxas alfandegárias e inclusive o tempo de entrega e até o trânsito de mercadorias. Esta cidade possui uma relação de subalternação com o campo, bem definida como fornecedor exclusivo de alimentos e matéria-prima.
Diferentemente da Antiguidade e a era Medieval, pois como Weber exemplifica, nesses períodos, ainda que com a existência de camponeses, o campo era uma continuidade das cidades – fazia parte. Sendo que, o domínio ainda concentrava-se nas mãos de único representante Senhorial-Ditatorial da realeza. O Estado político e o Poder Religioso eram uma só voz, destarte os reis eram coroados pela vontade de “deus”. Estruturada sob três pilares: o primeiro – Senhorial-Ditatorial; o segundo – na economia agrícola de subsistência, com comercio primitivo de trocas e o terceiro – possuindo uma política militar na pratica da guerra com objetivo sumo na conquista de novos territórios como legitimação de uma dinastia ou reino.

A cidade torna-se o epicentro das transformações na ocupação dos espaços, segundo Castells, e ainda das mentes dos metropolitanos, quanto a dinâmica da sociedade de informação do mundo contemporâneo. Porquanto a padronização da modernidade estabelece uma relação vertical nos meios de produção e reprodução da vida. Após a segunda guerra mundial, mas precisamente na década de 70, o mundo moderno entra em profunda desilusão, pois a certeza que se tinha que a tecnologia seria a solução de todos os problemas da humanidade, o século XX, trouxe uma profunda reflexão às narrativas dos Direitos Humanos, o meio ambiente, cosmopolitismo fragmentário, na qual as relações mudaram de posição de vertical para horizontal. Isto se deu, em virtude da evolução tecnológica (máquinas mais rápidas que passaram a realizar trabalhos mais complexos, ocupando o lugar de mão-de-obra especializada), pela troca do sistema Fordista/Keynesiano pelo Toyotismo, flexibilização dos trabalhos, terceirização, quarteirização (. . .), como a busca de eliminação do re-trabalho, na pós-modernidade. Assim, a exigência pela economia no processo produtivo juntamente com a concorrência globalizada, a indústria precisou se fragmentar e buscar base fabril em outros países com mão-de-obra mais barata adquirindo vantagens fiscais e insumos de produção. Fixando escritórios administrativos nos grandes centros, chão de fábrica nos países subdesenvolvidos e adequação dos dispositivos de manutenção e suporte técnico como pós-venda em locais geograficamente eficientes em todo o globo.

Nesta ciranda de avanços , da flexibilização e terceirização e quarteirização - dos serviços - , na dinamização dos processos produtivos e de reprodução da vida, o homem metropolitano passou a levar trabalho em casa e a transformar a sua casa como uma extensão da empresa. Em contrapartida a globalização transformou algumas metrópoles em conglomerados de pessoas sem uma cultura definida, ou sem uma identidade especifica. Conforme o desenvolvimento das cidades em megalópolis, os espaços estão sendo modificados e transformados na combinação de fluxos de informações em diversos lugares simultaneamente.

O cidadão do mundo ou da “cidade global” é aquele que só tem dois lugares bem definidos para ocupar: Entre os que dominam a rede de informação, com altos investimentos e uma tecnologia de ponta a serviço de interesses políticos e econômicos; ou entre os segregados com equipamentos ora de segunda ora de terceira mão, ou ainda sem nada e sem internet de forma alguma. De forma que ao apelo da cidade é a conectividade cultural no cyber espaço de fluxos de informação, nos quais se refletem na vida, na arquitetura e na simbologia dessa dinâmica virtual.