
Os textos abaixo trazem temáticas particularmente únicas em seus eixos de observação, contudo, é possível detectar idéias congruentes nos três, na qual esta resenha propõe-se descrever pontuando e tecendo algumas críticas aos trabalhos em epígrafe.
Considerando a Sociedade Brasileira após a leitura e meditação dos mesmos, e levando em conta a historicidade da colonização e a dominação portuguesa, podemos compreender aspectos da organização social permeada por raízes de uma estrutura patriarcal, que se perpetua apesar das descobertas e avanços tecnológicos no setor de reprodução humana e medicina como todo.
Conforme o estudo da Dra. Maria Luiza Heilborn, que traça todo um perfil de contextos culturais de uma sociedade heterogênica e complexa. Faz um levantamento de entrevistas de indivíduos de classe média e popular. Visualizamos que homens e mulheres possuem seus roteiros sexuais próprios, muito embora padrões de comportamento sejam avaliados e cobrados pelos grupos de origem. Assim, a autora traz performances de vidas, detalhando até entre duas gerações. As diferenças que circundam uma mesma sociedade, que apesar de dividida por classes, os indivíduos ainda têm bem nítido valores de seus antepassados mais distantes.
A contemporaneidade vem com suas novidades tecnológicas como reprodução in vitro, clonagem, barriga de aluguel, DNA, [...] trazendo ao mirante dos debates referentes às praticas sexuais, que em novos contextos definidos como liberais pela vivência da sexualidade, que para a autora tornou-se imperativo de existência. Mas, entretanto, na visão de Darcy Ribeiro, essa liberdade sexual já era vivida na colonização, ainda que escancaradamente numa visão masculina e opressora do Brasil colônia, conforme sua obra: Povo Brasileiro. Para além da historicidade do fato, a autora Miriam Grossi, em sua análise, Identidade de Gênero e Sexualidade, faz uma leitura da aquisição de uma identidade de gênero mensurando sua constituição primariamente, num meio social. Nos quais, seus estudos abordam a condição feminina, dentre um período emblemático – os libertários anos 60 – até os anos dos enfáticos estudos de gênero, os anos 90. Neste ponto tanto os estudo de Grossi como os de Heilborn apresentam intrinsecamente o lugar da mulher dentro de uma sociedade heterogênica que vive duas opressões: a de classe e a de sexo.
Ainda que a classe média – conforme relatos da pesquisa de campo de Heilborn – viva sob influências tecnológicas e goze de certa liberdade quanto à iniciação sexual, é factível que essas mulheres passem por um ‘crivo social’, estigmatizadas por preocupações com DST/AIDS, gravidez, e ainda o desejo de um parceiro que esteja à altura de suas ansiedades; em seguida, as de classe popular, estão praticamente a mercê de seus primeiros parceiros, sendo estes futuros maridos, no entanto, nesta classe a prevenção de DST é simplesmente o isolamento com o parceiro fixo – o marido. Interessante notar: que ao homem (em ambas as classes sociais) é dado um roteiro de procedimentos completamente avesso aos das mulheres – embora as de classe média ainda possam escolher melhor seus parceiros, que as de classe popular – não muito diferente que há alguns anos atrás.
Os anos libertários trouxeram muitas ferramentas às mulheres, tais quais: a escolha de parceiros, de quantidade de filhos, menstruar ou não – inclusive no Brasil de hoje a mulher esta com menos filhos que na década de 60, um que de 1,2 filho por mulher pra 3,4 em quarenta anos! -, nesta nova dinâmica de vida e de ‘liberdade’, outro ponto em debate é a questão da fidelidade... Em 1997, a popularização da tecnologia do DNA pôs e ainda põe em dúvidas relações, circunstâncias, e o que é pior - traz mais dúvidas do que se propõe a resolver. Nestes termos, a autora Claudia Fonseca, em seu contundente artigo, estudou casos na Vara de Família em Porto Alegre, casos de indivíduos que procuraram a justiça para pedir o direito ao acesso ao teste, dos quais reflete o quanto a interseção das esferas médica e jurídica influenciam a família brasileira, sobre as relações de gênero e parentesco da sociedade contemporânea. E, do que a mulher foi lhe dada à oportunidade de algumas escolhas, e que até bem pouco tempo seriam impossíveis, aos homens foi lhes dado a oportunidade de assumir um filho de seu cônjuge e até mesmo contestar a paternidade de filhos dentro de uma relação aparentemente ‘estável’.
A antropologia tem dedicado-se a olhares em outras sociedades – tribais – e equiparando, menciona que há sociedades que a relação de pai e filho se consolidam através da alimentação e não pelo sangue ou sêmen. Assim, Fonseca da luzes a discussão dos custos/benefícios de um investimento do Estado que põe em cheque relações de pai e filho – que em alguns casos, questiona-se o valor de um pai biológico ou o social – e em conjunto com a despesa emocional dos atores principais e da família, o Estado de Santa Catarina chega a gastar cerca de 1 milhão de reais dos cofres públicos, em detrimento de razões diversas. Tais quais, não só infidelidade, ou preconceito de cor, mas legitimidade de herança, e ainda a busca de um suposto provedor para sanar circunstâncias de pobreza. Ora, segundo a autora, as políticas públicas voltadas para pais e mães solteiros resolvem muito mais, do que os resumidos 30% (trinta por cento) do salário mínimo que uma criança tem direito em caso de pensão alimentícia. Fonseca ainda conclui que essa ‘certeza’ traz mais dúvida do que tranqüilidade, arremato ainda, que essa dúvida está calcada em uma sociedade que ainda vela pelos princípios do patriarcado, prova disso, é que ainda que o teste traga a certeza dos 99,99% (noventa e nove, noventa e nove por cento), um homem aceitar um filho de outro chegar a ser tão honroso para mesma sociedade, que chega até a substituir, no novo relacionamento, a legitimação do casamento civil e/ou religioso.
Logo, estando os papeis bem distribuídos e atestadamente consolidados nesta sociedade patriarcal, conceber um terceiro gênero é quase inimaginável, para muitos – ainda é mais fácil entender como uma doença psicológica, ou qualquer outro prognóstico – entender a questão do homossexualismo ou homoerotismo – como trata Grossi. Em um trabalho importantíssimo que delimita conceitos de gênero e papéis de gênero descolado da de sexualidade. Entre os autores que Grossi dialoga de Françoise Héritier à Freud, confirma com a idéia de Heilborn de que o “gênero que dá a diferença entre os sexos determina social, cultural e ainda historicamente”, onde esses papeis se assume representativamente dentro do universo social que conforme Freud, “é o que se aprende e o que se entende nos primeiros três anos de vida” – a construção do simbólico.
Ainda que, com a propulsão que as descobertas científicas simbolizaram e são tidos por indivíduos com homoerotismo – a realização do sonho de viver em família com parceiro do mesmo sexo. Trouxe a pauta outras discussões, como o casamento e o reconhecimento deste como legítimo no civil perante a sociedade, e a criação de filhos nestes modelos – questionamentos que até bem pouco tempo inconcebíveis, mas que a esfera do direito e da medicina tem garantido a concretização dessas situações atípicas da modernidade.
Outrora, esses pares tenham se legitimado em face à essas tecnologias, e ultrapassaram a compreensão da reprodução humana baseada na dicotomia homem/mulher – tem-se a opção da reprodução in vitro -, para autora, “não existe um terceiro gênero, pois tanto homens como mulheres tem a possibilidade de se sentirem atraídos pelo mesmo sexo sem deixar de ser o que são”. Tacitamente, as raízes de uma sociedade patriarcal ainda são perceptíveis num mundo que ainda está neofitamente concebendo essas descobertas com as novas formas de organização e de direitos concedidos socialmente. E atordoado no turbilhão de acontecimentos, não temos respostas consolidadas o bastante para perguntas que ficaram no ar, por exemplo: partindo de que ponto de vista, essa dinâmica influencia ou não as novas gerações de homens e mulheres que estão vivendo num prisma de tantas possibilidades, e diferentes de seus antepassados, e ainda, quais os desdobramentos disso. Claro que serão necessários maiores amadurecimentos dessas reflexões, que até o momento só tem somente margeado da sociedade esses grupos em questão, e conquanto ainda para esta sociedade, a idéia de que são pertencentes ao estigmatizados grupo de risco, como portadores de doenças como DST/AIDS.
Referências:
HEILBORN, Maria Luiza. Construção de si, gênero e sexualidade. In: Sexualidade o olhar das Ciências Sociais. Rio de Janeiro. Editora Zahar. 1999.
GROSSI, Miriam Pillar. Identidade de Gênero e Sexualidade. In.: Antropologia em Primeira Mão. Universidade Federal de Santa Catarina – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. 1995.
FONSECA, Claudia. Artigo: A Certeza que pariu a Dúvida: Paternidade e DNA. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

