quarta-feira, 19 de agosto de 2009

PARADA, UMA PARADA PARA PENSAR!




As paradas, as de ônibus, as do expresso (estresso como queiram), antes tão simples cobertura de telha vermelha e com bancos de cimento, aparente cobertura do sol e da chuva. Distanciadas com espaços de aproximadamente 500 metros entre cada uma, elas foram modificadas e ficaram com cara de shopping, com função de mini outdoors anunciam produtos, vendem idéias, produtos e uma infinidade de coisas . . . Essas novas armações metálicas são bonitos painéis de propaganda com vidro e luzes, mas tiraram a função da parada, que a princípio, era de proteger do sol e da chuva, enquanto espera pelo transporte urbano público, mas o que ocorre é que para além da beleza e modernidade que a nova parada proporciona, esta deixou de cumprir a que realmente veio.



Entretanto, há inúmeros bairros que nem possui esse aparelho urbano básico, expondo o usuário não só às intempéries do tempo, mas a sorte do motorista do ônibus parar no local, se ele souber que é lá o local, de parada. Em contraponto a isso, há lugares que possuem, mas que visualmente precisa de algo mais que promova essa “suposta” proteção ao usuário.

A meu ver, essas paradas poderiam ficar na posição contrária do que hoje são, entenda-se “de costas”, parece meio sem lógica, mas pelo menos nessa posição que aparentemente possa enfatizar um pouco de maluquice, explico o porquê dessa inovadora posição. Primeiro, da forma em que está posicionada, esta não fornece sombra, nem protege das chuvas com vento, e agora que o sol está muito forte é a mesma coisa que não ter. Segundo, quando chove as poças de lama que somos obrigados a enfrentar, nos dias de chuva forte.




Além desses problemas pontuais, agora com o novo plano diretor em andamento, a questão de mobilidade urbana é um item que a população deveria organizadamente propor melhorias, afinal, somos nós usuários dos transportes urbanos é que andamos quilômetros no sol atrás da parada de ônibus [. . .] E conforme os representantes da IMPLURB, preparem seus protetores solares, água, sombrinha, [ ... ], pois as paradas vão ficar mais distantes (o dobro do que é hoje ou quem sabe o triplo dependendo da localidade), serão instalados novos corredores de tráfego para os ônibus sanfonados. Justificativa: ônibus desse tamanho precisa percorrer maiores distâncias para não ficar pingando, ou seja, não passam da terceira marcha, no máximo na quarta. E assim preparem as canelas, pois para chegar ao compromisso na hora certa tem que sair mais cedo de casa, ou então andar muito, muito rápido. . .

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Artigo: Manaus, do Inferno Verde à Cidade das Oportunidades




Um olhar histórico

Desde sua colonização, a Amazônia tem sido descrita como o “Inferno Verde”, em virtude às histórias descritas pelos viajantes expedicionários, no início da colonização, tais como as historiografias feitas por padres jesuítas no início do século, que perpassam do ‘Inferno’ e vão ao ‘Paraíso’, constituído de povos sem conflitos que vivem da colheita de produtos naturais.

Entre os séculos XIX e XX, Manaus conhece o boom da borracha. Período em que a cidade atravessa por um significativo processo de modernização, como efeito da exploração da borracha, voltada para uma economia de exportação e de matérias-primas, dentre outros gêneros tropicais. Tornando-se a borracha em conjunto com o café, os produtos mais exportados do país. Vista como a “Cidade Fausto”, pelo imaginário local, que baseava em uma economia conservadora. Projetando a cidade em uma “Paris nos Trópicos”, na qual, o ciclo da borracha proporcionou construções de grandes monumentos, gerida pela elite local.

Conforme a etnografia de Wagley (1955), da cidade de Gurupá, que retrata uma comunidade relativamente livre de conflito, e unificada por uma cultura cabocla ribeirinha coesiva, na qual descreve uma divisão social constituída de uma classe alta branca, descendentes de ricos mercadores; classe inferior, formada de pessoas locais de ancestrais de raças mistas fazendeiras dos arredores; seringueiros locais e extratores de produtos da floresta, estes últimos vivendo em condições subumanas. Caracterizando o mosaico de uma sociedade polarizada, contrastada pelo boom-bust econômico no oeste selvagem. Nesta etnografia, em nenhuma das classes que Wagley estudou, se diziam caboclos, esta categoria estava plenamente marginalizada na cidade de Gurupá, por todas as classes sociais.

A queda da borracha no mercado internacional trouxe a cidade mudanças, passando de harmoniosa para cheia de contradições. Tendo como pedra de toque, a resistência a mudança de padrões existentes, resultando na estratificação de minorias locais, que se chocou com a cultura ‘afrancesada’, na qual reapropriaram os espaços para manter o controle das estruturas de poder. Na busca de uma reorganização diante da crise, a elite investiu nas casas aviadoras existentes, como saída econômica. Assim caracterizando a história de uma cidade que remonta sempre a política do “o por fazer”.

A militarização na Amazônia, na década de 60, visava atingir dois objetivos: estabelecer fluxos migratórios, aliviando os conflitos por terra no sul do país, e, explorar as riquezas minerais, com a criação de um mercado para escoamento de bens de produção. Assim, cumprir com diversos Planos Nacionais de Desenvolvimento como a Zona Franca de Manaus, que destinava a refazer e a reforçar laços na região em conjunto com o país, abrindo extensivamente para o capital estrangeiro. Este evento somente foi possível num governo autoritário, porque fazia parte da estratégia de rearticulação do sistema capitalista, o que exigia intervenção do poder público.
Em 1970, o grande ciclo – o PIM – estabelece-se, fazendo Manaus crescer extraordinariamente. E, juntamente com os 137.113 postos de trabalho oferecidos pelo PIM (Suframa 1989), surge dois tipos de ocupações, a mista – conjuntos habitacionais -, e as espontâneas – invasões -, esparramando a cidade no sentido leste, norte e ao longo das margens do Rio Negro.

Entretanto, antes mesmo da implantação do PIM, aparecem os conjuntos habitacionais de Flores e da Raiz, em conjunto com a ocupação dos igarapés, que a partir de 1970, passam por uma vigorosa transformação. Logo, essas intervenções estatais não foram capazes de absorver o contingencial populacional, ocasionando em periferização da cidade. Emoldurando uma situação, que depois da II Guerra Mundial, eclode na primazia reinante da região, que mudou em um curto espaço de tempo a paisagem da cidade. Expandindo o controle de fronteiras, a industrialização, conseqüentemente trouxe a precarização dos aparelhos urbanos, com a maximização da migração incentivada pelo governo militar.

A imagem rural que há muito se perpetuara no imaginário popular, e que ainda hoje é vendida como produto turístico, contrapõe a verdadeira realidade que nos deparamos: uma população emergentemente urbana. Constatada pelo Censo dos últimos quarenta anos. Sendo que, em 1960 somente vinte e três cidades possuíam mais de cinco mil habitantes, tendo Manaus e Belém como grandes centros. Entretanto, na década de 90 são cento e trinta e três cidades com mais de cinco mil habitantes e oito com mais de cem mil, chegando Manaus a aproximadamente doze milhões de habitantes. E por incrível que possa parecer, Belém passa por uma evacuação da população para cidades médias do estado, ou até mesmo, migração para Manaus. Nestes termos, a configuração muda completamente, sendo que muitas cidades antes isoladas, hoje, já possuem acessibilidade por carro via asfalto. A alteração do cenário Amazônico é eloqüente, perpassa a proliferação de médias cidades, chegando a capacitação das grandes para o status de metrópole e até tecnópole.

É através da história que se pode resgatar a trajetória das cidades Amazônicas, identificando momentos de sua modernização e de ocupação privada de espaços públicos. A priori a análise inicia com a observância das diferenças exorbitantes entre o Brasil – EUA – Europa. Comparando, os países anglo-saxônicos mesmo que sendo colônias, como por exemplo, os EUA, tiveram tratamento diferenciado quanto a sua ocupação. No passado, a corrida para a ocupação do Oeste da América, é um exemplo disso, pois quem chegasse lá demarcava seu território “até onde sua vista alcançava”. Nessas cidades, o subúrbio, é um local somente de moradias, sem casas comerciais, diferentemente no Brasil, a elite mora no subúrbio. Da mesma forma na Europa, onde nos grandes centros há localizações especificas para determinadas finalidades.

No Brasil, as terras sempre pertenceram a União, desde a colônia, tendo-se a permissão para cultivo, apenas, e não para posse. Isto, sem contar com os incentivos que milhares de migrantes colonos receberam para ocupar o país, logo após a libertação dos escravos. Estes últimos, mesmo libertos, sem ter ganhado nenhum tipo de instrução ou terra para cultivo, ainda permaneceram cativos do trabalho compulsório, e do preconceito. Ao contrario dos negros americanos, que com lutas adquiriram o direitos de ser posseiros.

Outro personagem que contribuiu para essa desorganização espacial, para além dos embates culturalmente firmados nas estruturas de poder, está o “taberneiro”, que começou a aparecer por todos os lugares, como uma saída para equalizar as diferenças na pirâmide econômica, que desde a colônia, vem se aperfeiçoando, tanto em nicho, quanto o caráter de comércio espalhado por toda parte, das cidades do Brasil.

As seqüelas do boom-bust, que a modernidade tem trazido, são desde as pretensas linhas de trem de Porto Velho (Madeira-Mamoré), chegando ao Shopping Amazonas, implantação de empresas como Jarí, Fordlandia, que com surgimento de investimentos internacionais, trouxeram um renascimento econômico, que no fim de suas efervescências, se resultaram em cidades fantasmas. Produtos de uma ocupação linear de fronteiras que fundamentou essas teorias.

Sendo assim, os sistemas de fronteiras, com as teorias de articulação são: a teoria tradicional que tende a sugerir mudança local articulada como força motriz, cuja dinâmica forma um modelo espacial. Da mesma forma a teoria econômica política enfatiza a articulação local, a penetração do capitalismo como o agronegócio, conseqüentemente provocaram embates políticos promissores nos últimos vinte anos, de povos que constituíram movimentos sociais, na busca de defender da ocupação privada, seus “territórios tradicionalmente ocupados”.

Assim, o reconhecimento que estamos numa região extremamente urbana, condiz à intervenção de políticas governamentais apropriadas nos equipamentos das cidades com os aparelhos urbanos, que, infelizmente, tentam seguir os modelos norte-americanos e europeus. Não correspondendo por causa da ocupação multiformemente desenvolvida. Pois, a configuração do sistema de assentamento na Amazônia é irregular, polimórfica, assimétrica quanto a sua organização regional do sistema de assentamento, desarticulada de qualquer princípio – híbridas -, caracterizando-se em encruzilhadas tecnológicas que ligam atividades específicas aos circuitos globais de informação e cambio.

Segundo, John Browder e Brian Godfrey (2006), descrevem caracterizando o estado de emergência dessas novas realidades, que são processos locais dinâmicos, complexos e ainda mal entendidos. Propondo princípios que constitui as ferramentas conceituais:

a) A Amazônia é um espaço social heterogêneo, que desafia sua classificação como tal;

b) Crescimento econômico caracterizado pelo boom-bust;

c) Desarticulação com a indústria regional;

d) Articulação com o comercio exterior, em atividades específicas;

e) A fronteira urbana é uma criação política contínua desarticulada do Estado controlador;

f) As categorias urbano/rural entram em desuso quando se pensa a Amazônia brasileira;

As metrópoles do norte

O ciclo econômico da borracha foi a grande mola propulsora que trouxe ares de modernidade para cidades do norte como Manaus, Belém e Porto Velho.
Principalmente no caso de Manaus, que situada no meio da selva a margem de dois rios não comporta um só parque florestal, aterra seus igarapés ou os deixa como veias a drenar o esgoto [...]. Nascida a partir do forte São João da Barra, revela a preocupação portuguesa com a conquista de territórios e apoio na defesa de fronteiras. Começa a surgir um povoado em volta sem o menor planejamento. Com a desativação do forte em 1783, no objetivo de transformá-lo em vila, o processo de reorganização econômica e política colonial, procede de forma linear. Não demorando muito para se formar o conjunto Grão-Pará, a Comarca do Alto Amazonas em 1833, conseguintemente, em província em 1850, seguido do boom da borracha e a implementação da navegação a vapor.

O glamour da “Paris dos trópicos” decai seu prestígio com a crise, derivada da queda da borracha no mercado internacional. A cidade sofre mudanças, passando de harmoniosa para cheia de contradições. Na busca de uma reorganização econômica diante da crise, a elite resistiu a mudanças bruscas nos padrões existentes, resultando na estratificação de minorias locais, que entraram em choque com a cultura afrancesada, onde reapropriaram os espaços para manter o controle das estruturas de poder. Investindo nas casas aviadoras existentes. A militarização da Amazônia, após a Segunda Grande Guerra Mundial, no objetivo de ocupar um grande território e desafogar a região sul de conflitos, integrando o norte ao comércio do restante dos pais. Entretanto essa ocupação desdobrou em uma periferização da cidade, na qual, onde as políticas públicas não absorveram o contingencial populacional, precarizando os aparelhos urbanos.

Da mesma forma, Belém é uma cidade ribeirinha caracterizada pelo contraste urbano e rural, baseada numa economia extrativista de riquezas naturais, onde as divergências do privado e do público emergem, evidenciando a mudança na representação social, da relação entre a sociedade e a água. Surgindo uma nova demanda no atendimento da vida na cidade. Nessa dialética do conflito e da modernização na superfície de Belém, protagonizaram os modelos de gestão portuária. Na estratégia de conceber novas geografias globais da economia, não respeitando limites territoriais na busca de competitividade, entretanto, os investimentos privados em infra-estrutura garantiram a sustentabilidade, mas transformaram o porto de espaço de uso público, em um espaço para atender demandas privadas do comércio de mercadorias. Essa trajetória, a priori, administrada pela municipalidade, teve interferências dos exportadores de borracha – entre outros produtos como minérios -, que dentre as décadas de cinqüenta e oitenta, privatização a gestão do porto. Estratificando o uso para apenas a movimentação de matéria-prima, assim não integrando o público e o privado locais, justificadas na participação de atores nacionais e transnacionais, detentores de poder na gestão dos fluxos do comercio exterior. Muito embora, hoje passe por um processo de evacuação populacional, a cidade ainda possui uma importante atividade portuária.

Porto Velho, não muito diferente das outras, advinda de forte, como ponto estratégico na defesa de fronteiras, tem sua função econômica baseada na agricultura e mineração. Originada de naturezas messiânicas e estratégicas na dinamização de um projeto para suporte logístico a construção de uma ferrovia, que segundo a descrição de Marcio Santos in Mad Maria, interligaria Rondônia ao comércio de países vizinhos: “... Eram as portentosas árvores que circundavam a praça e sombreavam algumas ruas centrais. Centro do salutar espírito do monopólio, o armazém, a tinturaria, o cinema, o cassino, os prédio públicos, os alojamentos, o hospital, pertenciam ao Sindicato de Farquhar (...) a ordem era mantida por uma polícia particular do Sindicato de Farquhar...”. A ferrovia Madeira-Mamoré, objetivou-se no escoamento da extração de borracha, madeira, entre outras matérias-primas. Tornando Porto Velho, a capital administrativa dos fluxos de capitais estrangeiros, na organização de grandes cenários corporativos como Jarí, Carajás e Tucuruí. Ainda que, tenham se gastando incalculáveis fortunas para a construção desta ferrovia, os investimentos em trabalho humano chegaram ao absurdo de importar mão-de-obra de diversos países, desdobrando em mortes, quer por causa da malária, quer por condições insalubres de trabalho. Rondônia teve sua grande fase de desenvolvimento, pós segunda guerra mundial, na década de setenta, com assentamentos rurais que dinamizaram a hegemonia com o interior, valorizando o setor comercial da capital na contínua e importante economia local. Nos últimos trinta anos, a industrialização chegou, mas não se compara com a que ocorreu em Manaus, redirecionando a população para os garimpos, resultando em perifização. Onde constitui uma incubadora de atividades econômicas na geração de empregos, sendo os bairros fonte de desenvolvimento de estratégias de participação local amplamente auto-suficiente.

Estatuto da Cidade: uma questão de cidadania

Na efervescente década de 60, muitos acontecimentos marcaram aquele decênio, como a ditadura, a crise econômica, o surgimento de uma nova ordem político-econômica. Mas sobretudo pelo debate no Seminário “Habitação e Reforma Urbana” (1964), que na qual originou um anteprojeto da CNPU – Conselho Nacional de Política Urbana, órgão do Ministério do Interior, com ajuda e apoio de técnicos e consultores progressistas.

Fato é que os militares pretendiam ocupar o solo Amazônico. Entretanto, essa questão de organização dos espaços é um pouco mais antiga, [...], nos remete lá pelas épocas do surgimento das vacinas, quando Osvaldo de Andrade militava a saúde para todos, neste período, também se discutia para além da saúde, os aparelhos urbanos, como instrumento para a contenção de pragas e epidemias na manutenção de “lugares públicos limpos”, para a preservação da saúde pública. Todavia, este diálogo se acentua com o Anteprojeto que fora engavetado. E que, somente em 1980, é retomado o debate com uma proposta de Reforma Urbana, fundamentando uma nova Instituição de Políticas Públicas. No ano seguinte, se torna objeto da campanha eleitoral de Brizola, com a seguinte proposta: “Cada família, um lote”, desengavetando-o. Logo, essa especulação política, abre novos debates para alteração do mesmo, entrando em conflito com o “Poder Público e a Especulação Imobiliária”.

Contudo, com a Constituição de 1988, promulga-se em forma dos artigos 182 e 183, estabelecendo diretrizes gerais da política urbana, a Lei 10.257, alterada em 10 de julho de 2001, onde recomenda outros encaminhamentos. Conforme seu capítulo 1°, art. 1°, no parágrafo único, pode ver como adiante escrito:

Parágrafo único. Para todos os efeitos, esta Lei, denominada Estatuto das Cidades, estabelece normas de ordem pública e interesse social que regulam o uso da propriedade em prol do bem coletivo, bem como do equilíbrio ambiental.

O Estatuto da Cidade é filho intelectual e ideológico do Estado de Bem-Estar Social, que com a política instalada de Getúlio Vargas e os governos posteriores, sob moldes da democracia emergente, trás consigo a diretriz de uma gestão assim intitulada “democrática”, por meio de consultas à população, de representatividades das associações de vários seguimentos, o acompanhamento de programas e projetos de desenvolvimento urbano para o atendimento ao interesse social. Sendo que, seus modelos de políticas públicas – dois -, são o primeiro Redistributivo, que pretende capturar renda para financiar a ação pública, de maneira que equalize as condições habitacionais e urbanas da cidade, e ainda Regulatórias, pois pretende a valorização da terra aos imperativos das necessidades coletivas; e o segundo é o Distributivo, que regulariza a questão fundiária, a urbanização das favelas, usucapião especial urbano, entre outros.

Apesar disso, o sistema público de produção e gestão da infra-estrutura de Estado teve o papel no aumento na produtividade do trabalho, assim como na aceleração e acumulação de capitais (investimentos internacionais), ao mesmo tempo em que melhorou as condições de vida. E todo o planejamento público voltou-se para ser pautado pelo valor de mercado. Emergindo o ponto nefrálgico e até sulfrágico, que é a relação que se estabelece entre o privado e o público, a partir, precisamente, do governo de JK. Com a abertura das portas para investimentos estrangeiros, o Estado adotou técnicas para compatibilizar as despesas com as necessidades, com a análise de custo/benefício, discriminando a “produtividade” das despesas em detrimento aos investimentos, assim, o Estado de Bem-Estar social sai de cena para entrar o Estado Gerencial. Ainda que, no Estatuto das cidades, na Seção X, art. 32, § 1°, considera consorciado o conjunto de intervenções (participação do privado), objetivando transformações urbanísticas para melhorias sociais e a valorização ambiental. Por outro lado, no mesmo período os circuitos mercantis e imobiliários passam por um processo de internacionalização de capitais, com o qual o Estado não mais compatibiliza dos mecanismos de produção e distribuição de riqueza, e com o Estado Gerencial se estabelece o Neoliberalismo.

Destarte, como Maura Véras cita em seu artigo: Sociedade Urbana: Desigualdades e Exclusão Social, a gestão política econômica ganha um dualismo atrasado/moderno, não integrado, que o rural x urbano delibera novas demandas, onde as relações econômicas e sociais são vistas inerentes ao capitalismo. Conseqüentemente a cidade capitalista dificulta o consumo e o acesso do pobre aos mecanismos institucionais da democracia. Deste modo, parafraseando, o clássico dualismo entre civilis e polis se reintegram as novas regras do jogo, onde os meios chamados coletivos de consumo mais excluem, confirmando a desigualdade sócio-espacial de desagregação da população.
Milton Santos apud Véras aborda em sua abrangente obra, que a ocupação espacial confronta-se com uma nova questão o lugar, o direito das diferenças étnicas ao seu lugar de origem, lugar este que ganha dimensão patrimonial histórica, emergindo assim as mais variadas lutas e movimentos sociais, nos quais reclamam o seu lugar no espaço da cidade. Emergindo a cidadania, para reclamar esse direito identitário de espaço de memória, onde várias etnias como índios e negros reivindicam a redemocratização da sociedade.

Portanto, a pobreza se resignifica e ganha novas dimensões e até moral, tornando remotas as possibilidades de ascensão social, onde o discurso não mais constrange, mas pelo contrário, por um lado se repele, e pelo outro esse debate ganha dimensões internacionais na cobrança de políticas públicas que possam minimizar no objetivo igualdade do homem moderno, que perpassa pelo caráter de dignidade do ponto de vista político de ser reincluindo. Essas cobranças internacionais visam diminuir a migração para países de primeiro mundo, pois se percebem a busca dessas políticas pelos imigrantes.

A organização espacial econômica de aglomeração urbana percorre três etapas e logo possui suas respectivas conseqüências: I – O urbano na colônia como lócus do controle da acumulação do capital mercantil através da exploração do trabalho escravo, ou semi-escravo divide e distancia a cidade do meio rural, ou ainda industrializa, com o agronegócio, redefinindo-o. Tendo como conseqüência a industrialização com a formação da raiz dos nossos problemas da modernidade; II – A cidade como sede de parte da acumulação do capital mercantil, quando se desenvolve uma economia urbana no interior da economia agrário-exportadora, tem como conseqüência o bloqueio da formação da moderna cidadania; e III - A cidade da indústria, com dois sub-períodos: a) fase do populismo que estrutura a produtividade e orienta à base de bens salariais de consumo; e b) desenvolvimento associado, orientado para a produção de bens de consumo de luxo. Acarretando a constituição de poderosos interesses mercantis ligados à acumulação urbana – poder corporativo.

Nestes termos, o direito do pobre passou a ser pesado pelo Estado, transformando-se em “Custo Brasil”, remontando a situação de obstáculo ao desenvolvimento e efetivação da democracia, e configurando na ausência de proteção social e cidadania. Conseguinte, suas origens nestes processos urbanos são a difusão do neoliberalismo, o surgimento da mercantilização das condições de produção e reprodução da vida, a universalização dos serviços e desafios da transição do autoritarismo para a democracia na sociedade brasileira. Desaguando-nos mais famosos problemas sociais de países terceiro mundistas como o Brasil, nos quais, o crescimento desordenado da cidade em virtude a industrialização e migração, surgindo às favelas (novos bairros), ou ainda favelização de zonas centrais sem os aparelhos urbanos de infra-estrutura, na nova cisão entre incluídos x excluídos.

Considerações
Destarte, os novos processos de modernização redefinem e inovam os espaços, segundo a racionalidade instrumental, sendo que, o conceito de espaço ultrapassa o significado de linguagem, e adquiri outro cultural. Ampliando-se para uma representação da ação do saber sobre o mundo e a sociedade [...], pelo efeito de sua representação recíproca e da sua reflexão teórica e pratica. Retratando hierarquias e processos de segregação social.

Nesta perspectiva, as relações sociais, econômicas, políticas e culturais que há nas cidades ribeirinhas, recriam novas formas de trabalho, transformando a natureza no uso de tecnologias avançadas no modo de produção. A pluralidade das situações encerra a diversidade da experiência social, na emanação de círculos culturais, pelos estigmas preconceituais, na necessidade de demarcar os espaços sociais. Assim, a cidade é onde acontecem as negociações, conflitos, sendo o espaço de manifestação e visibilidade, sendo que: permite entender as práticas sociais onde se dão de forma conectada a conflitos; o espaço é produção social e reprodução do espaço, que interpõe indivíduos entre eles mesmos.

Concluindo-se que, não coincide com o inventario dos objetos nos espaços, nem no discurso de sua apresentação, na qual a espacialidade oculta conseqüências que podem revelar formas e conteúdos espaciais que se transformam e/ou permanecem.

Uma etnografia da praça da matriz



Manaus, no período de sua elevação a província, nem parecia fazer parte do Brasil, porque aquele que fosse pego de outro estado por mais de dois anos sem se naturalizar amazonense, seria deportado. O comércio na década de 40 se localizava na Rua Eduardo Ribeiro, mas bem caracterizado e seguimentado, pois a padaria pertencia a um português, o comércio de miudezas e tecidos dividia-se entre judeus e turcos, e a construção civil era estritamente inglesa. Esta era a visão que se tinha quando se chegava em Manaus entre o período de queda do ciclo econômico da borracha e a movimentação para a implantação de mais um ciclo econômico: PIM.

Observando as características diferenciadas dos grupos ali existentes, busquei, segundo os moldes culturalistas, compreender os passos pelos quais aqueles indivíduos tornaram-se aquilo que são. Sabe-se que cada indivíduo tem em si tendências, mas a cultura a qual pertencem realiza a seleção. O grande arco das possibilidades humanas da Praça da Matriz subdivide-se em padrões culturais conformando os indivíduos aos valores próprios de sua cultura. Cada cultura apresentada traz uma personalidade que é estimulada em cada indivíduo que foi entrevistado. Segundo Ruth Benedict, o indivíduo é uma pequena cria de sua cultura, e, tomando parte nas atividades dessa cultura, as crenças, os hábitos, os valores, as possibilidades, enfim, os costumes de sua cultura serão seus.

Caminhando pela praça, senti o sol, que não dava trégua naquela manhã, no entanto, uma brisa fresca amenizava o calor e a sombra das árvores dispostas assimetricamente no que restava dos jardins da praça refugiava do calor dos que ali chegavam. Embora a manhã estivesse tão clara, o ambiente parecia nublado naquela área da praça. A maioria das pessoas olhavam como que intrigadas.

Observando mais profundamente o ambiente, percebi algumas mulheres sentadas nos bancos fazendo ponto e, segundo os depoimentos coletados de algumas pessoas que ali estavam, aquele lugar era um ambiente perigoso. Prostituição, roubos e furtos são comuns.

Alargando mais o olhar percebe-se que os indivíduos acumulados ao redor de toda igreja agrupam-se de acordo com as atividades que exercem para garantir a sobrevivência, mostrando feições culturais diferenciadas, formando um grande arco de possibilidades humanas: os hippies, os fiéis, os desocupados, as prostitutas e os vendedores, estes, formando o grupo dominante e ocupando maior espaço. São vários mundos paralelos que dividem o espaço e dividem estórias.

Investigando a vida comercial da praça, iniciando pela calçada atrás da igreja e chegando até a parte esquerda da praça, onde cruzam as ruas sete de setembro e rua da instalação, neste percurso encontramos dois grupos distintos de ambulantes: os novatos e os antigos. Os novatos – aqueles que possuem de meses até 1 ano ali trabalhando, localizam-se na parte posterior da igreja. Estes indivíduos ainda que muitos sejam amazonenses natos, são provenientes de linhagens familiares que migraram nos últimos trinta a vinte anos, alguns ainda trabalharam no PIM – Polo Industrial de Manaus – mas com as últimas crises tornaram-se um exército de reserva, sendo partícipes dos processos econômicos como Polany aborda in A grande transformação: “Uma economia de mercado significa um sistema auto-regulável de mercado, em termos ligeiramente mais técnicos, é uma economia dirigida pelos preços e nada além disso”. Assim como na fala de Dona Êna – Da Banca de Pastel - ela é paraense mesmo morando a 20 anos em Manaus e diz que “se tivesse condições voltaria para a terra natal de seus pais e avôs, pois está ali para trabalhar”; ou ainda o Sr. José, que há 15 anos trabalha na praça, em uma banca onde descasca castanha que vem do Rio Madeira, oriundo de Santarém, alega que lá onde morava não há emprego suficiente para todos, por isso veio para Manaus. Dessa forma, esses novatos não possuem um vínculo mais cultural com a praça além do econômico, entretanto, eles demonstram que o aproveitamento do espaço resulta na oportunidade de realização de novos negócios, que o comércio formal não mais oferece.

Assim como afirma Boas, “toda cultura tem uma tradição, uma essência e essa tradição podendo ser mudada, plural na sua essência, de alguma forma é um determinismo de comportamento num misto de símbolos e cores”. Observamos esse misto de símbolos e cores na efervescência que a praça representa, neste complexo cultural ali expressado em curto espaço geográfico. Demonstrando a pesquisa de campo na fala de D. Walkíria (45 anos), nascida em Portugal, mas que mora no Brasil desde os 5, em Belém, há 15 em Manaus. Veio a passeio com a família e por motivo de doença do pai foi ficando, encontrando uma maneira de ganhar a vida. Chegou a trabalhar no PIM, mas é na praça que se fixou, na qual além de uma oportunidade de trabalho o lugar é “um ponto de encontro entre culturas”, diz. Continuando nossa pesquisa, conhecemos o senhor Dulcino (55 anos), paulista, veio a Manaus há 23 anos a passeio e ficou trabalhando na praça há 8 anos, vendendo bonés, bolsas, fitas cassetes e bijuterias. Para ele o lugar possui uma significação de “seu dia-a-dia, vivência e ganha pão”.
Seguindo este raciocínio, com os ambulantes antigos, que tiveram a oportunidade de presenciar as mudanças geográficas e institucionais bruscas na praça, com as quais readaptaram-se ao meio para o contínuo da busca pela sobrevivência. Conforme Ruth Benedict (2006) quando cita “Nenhum outro problema social nos cabe mais forçosamente conhecer do que este, do papel que o costume desempenha na formação do individuo”. Confirmando-se no relato de Dona Solange que hoje tem uma banca de langerie – parintinense – descendente do ciclo da borracha, sendo herdeira da 3a Geração de indígena. Veio para Manaus para ganhar a vida – aos 20 anos – começou vendendo café nos barcos, frutas para os viajantes, e conseguiu uma banca na praça pra vender calcinhas. Quando mais jovem, freqüentava a praça para namorar – “tinha flores, e um mini-zoo”, relata – na qual chamava as pessoas ao passeio. Nesse tempo havia uma pequena cerca para proteção da grama, cerca de 60 cm, e com a resolução do padre nos últimos seis anos em cercar a praça, trouxe muitos desentendimentos entre a igreja e ambulantes. “Não gosto das grades atuais”, comenta. Por seguinte, outro personagem da praça, que trabalha lá nos últimos 30 anos, é o Senhor Jorge – amazonense – trabalha com fotografia na praça – fotos exóticas, como por exemplo de uma cobra de 15m que engoliu um índio ––, descendente de caboclos coletores de produtos naturais e agricultura (linhagem negra). Ele chegou a trabalhar na praça antes e depois das grades, ficou na primeira escada, próximo da Via aquário. No início era somente nos fins de semana, enquanto que na semana trabalhava no PIM. Relatou que antes as bancas eram simples, e que depois a prefeitura padronizou para as atuais bancas, o posto policial e o ônibus do judiciário conseguintemente, mas que na prática não adiantou muito, a corrupção, a violência, e a conveniência com a bandidagem continuam.

Naquele ambiente cosmopolita em meio a divergências gritantes uma unidade os inclui: a busca de uma vida melhor, a luta pela sobrevivência. O todo existente é formado por segmentos. Cada grupo vive a sua verdade e no panorama global configuram os indivíduos que seguem caminhos diferenciados. As atividades exercidas pelos indivíduos, sua forma de trilhar os caminhos da vida, de estabelecer comunicação, a relação com o outro e com o mundo espiritual deixa claro a variação cultural observada e cada uma dessas culturas é fruto de processos sócio-culturais, psicológicos, históricos e geográficos únicos.

Os personagens entrevistados apresentaram normas de conduta estimuladas pelas instituições às quais estão submetidos. O modo de vida, suas virtudes, a capacidade de lutar pela vida, suas histórias, alegrias e frustrações, suas culpas, sua religiosidade são apreendidos na ordem social da qual estão fazendo parte. “Tais comportamentos não podem ser instintivos no sentido de que os seres humanos possam nascer com esse conjunto de instintos responsáveis por suas ações. No entanto, isso não os regula inteiramente, pois seguem veredas distintas marcadas por seus objetivos, finalidades e pela forma como concebem o mundo (Benedict, 2006)”.

Na análise do trabalho etnográfico feito em equipe, concluímos que o legado indígena e nordestino, que povoaram a cidade e os seringais amazonenses, conforme informações de historiadores, está nitidamente retratado no ambiente da Praça da Matriz. O jeito de ser amazonense freqüentador daquele espaço geográfico pode ser observado nos traços biológicos e nos costumes dos entrevistados. Os produtos artísticos (artesanatos) e alimentícios (tapioca, tucumã, peixe frito, a farinha, pamonha, baião, pirarucu de casaca, cocada, tacacá, etc.) que são comercializados retratam as origens do cocar e da poronga que constituíram dois reinados distintos. Muito embora tenhamos encontrado ainda afro-descendentes dentre os camelôs, que se assumem com tal e são reconhecidos no seu meio.

Entretanto, dentre as pessoas entrevistadas, ainda que com alguns traços biológicos indígenas e ou ainda com costume que identificamos como tais, nenhum deles assumiram identificar-se como indígenas. E quando perguntamos se o entrevistado possuía algum parente indígena, ou ainda descendência, ouvimos a seguinte pergunta: “Em que sentido você quer saber ?” . Partindo dessa indagação, ou contra-pergunta, entendo que a essência da praça não é indígena, pois além do preconceito visualmente declarado, vi o problema que Viveiros de Castro relata em sua entrevista: “...o problema das etnias submergentes, daqueles coletivos que estavam seguindo, por força das circunstâncias...”. E junto com o problema, a problemática de se saber afinal quem é índio, sendo aquele que se reconhece como índio, e que em sua comunidade o reconhecem como tal, e este indivíduo possui histórico, sócio-politico e cultural indígena para ser identificado como índio. E, infelizmente não encontramos ninguém que se ‘enquadrasse’ nesse conceito, apenas descendentes de terceira e quarta geração, e serão estes considerados índios? Será então que são índios civilizados? Seguindo o entendimento do culturalismo da escola americana, acredito, ser no mínimo incoerente. Pois, pelo pouco tempo de campo que dispomos, nos constrange a não fazer afirmações sem antes ter um estudo com mais fontes de parentesco, pois analisamos somente as linhagens. E linhagens estas que conforme estudo seriam as principais: brancos, índio e negros, caboclos considero como resultado da miscigenação e dos atritos interculturas. Conforme Boas e suas discípulas, vemos na praça a corrida pela sobrevivência diária, num espaço reduzido, onde todos tiram o melhor proveito para ganhar alguma coisa, seja o artesanato, as moças que fazem ponto e até o posto policial, onde os guardas ganham um ‘troco’ soltando malfeitores. E esse jeito de tirar o melhor proveito de tudo e de todos, é marcante do europeu. E não estou reduzindo a essência a um aspecto econômico, puro e simplesmente, pois você não será um verdadeiro ser humano, a menos que suprima essas tendências – a tal pressão social, segundo Mead (2000). Assim, observei que essas pessoas foram treinadas para possuírem uma personalidade agressiva, para dominar as personalidades submissas – seleção natural – destarte como todos nós que vivemos nessa corrida cosmopolita pela sobrevivência. Sendo claro, que conforme Benedict (2006), a essência é o que na realidade liga os homens é a sua cultura – as idéias e os padrões que têm em comum.