quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A Formação Social Brasileira



A formação do Brasil desde o descobrimento já traz arraigado na mente e na cultura de seus descendentes a dualidade social do “Sabe com quem está falando?”. E quando nos reportamos a Gilberto Freyre em Casa-Grande, é interessante quando é abordado o próprio preconceito dos europeus em relação ao português e ao espanhol, pela sua mistura com populações do norte da África. Neste sentido de mistura, o preconceito foi trazido e internalizado (pelos portugueses, entre outros), pois quando chegaram aqui acharam atrasadíssimos os aborígenes - índio (na fase ainda da pedra lascada), sendo este um aspecto importante para a formação social brasileira.

E pensando em sociedade brasileira, vemos em Da Matta o eixo que nos remete ao berço das relações sociais, esplêndido em leis universalizantes, margeada por uma moldura igualitária, imbuída de uma estrutura constituída de dois sistemas que se comunicam ambiguamente: a lei e o das relações pessoais. O que no princípio se caracterizou pela família rural – diferente da colonização espanhola e francesa – centrada na unidade de produção, formando uma aristocracia colonial poderosa. Ainda solidificada pelas diretrizes da igreja sendo o principal ‘cimento’ etnocêntrico católico. Que permeando todo o século XIX – em meados à abolição da escravatura – a dualidade (pessoa indivíduo) se estreita ainda mais, pois o negro e o índio não são constituídos, com a abolição, como cidadãos na sociedade brasileira, mas como restos humanos de uma sociedade que se pressupõe ser cidadã, quando se possui uma formação superior, um emprego no Estado (de caráter vitalício), isto para além de cor de pele e origem familiar.

E nesta dialética entre individuo e pessoa, vemos as sombras de personalidades que consigo trazem muitos, que para serem conhecidos e reconhecidos socialmente, necessitam impreterivelmente de mediadores – padrinhos, medalhões, etc. – ainda que para que isso ocorra, e seja comum e tido como uma ocorrência natural, a burlação de leis, onde a figura da pessoa é totalizada na identidade social vertical, de possuir uma ligação mínima se quer com as camadas sociais mais abastardas da sociedade, que conforme Da Matta, é caracterizada e constituída como uma sociedade semi-tradicional, holística, onde se particulariza a pessoa ao nível de biografia e se legifera por meio de leis globais, mascarando sua persona, ao ponto desta mascara ser tornar uma identidade social classificatória e preconcebida socialmente como uma marca que se leva a vida toda.

DA MATTA, Roberto. Sabe com quem está falando? Um ensaio sobre a distinção entre individuo e pessoa no Brasil. In: ___. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 181-206.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande e Senzala. São Paulo: Global, 2003, p. 65-155.

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