quinta-feira, 19 de novembro de 2009

No divã: a Sociologia Brasileira






A maior dificuldade da Sociologia é a de ser encarada como ciência. Isto abre espaços para intelectuais de plantão, havidos em opiniões sobre diversos assuntos e sempre a disposição de outorgarem análises sociológicas na mídia. O que ocorre, conforme Guerreiro Ramos, é uma falta de uma ‘ortodoxia’ na metodologia do trabalho de pesquisa, facilitando o surgimento de sociólogos espontâneos – em exercício de uma sociologia espontânea ou empírica, conforme crítica de Pierre Bourdieu.

O autor relata os primeiros momentos de uma Sociologia Brasileira [ou do] Brasil, na qual seus primeiros pensadores transpunham as teorias de forma integral sem se preocupar que tais teorias foram forjadas em situações reais de seus países de origem. Para Guerreiro Ramos, surge então a necessidade de se pensar os países subdesenvolvidos embasados em sua realidade terceiro mundista. Propondo o autor, que “os critérios metodológicos, de caráter autêntico, não se elaboram por via dogmático dedutiva, mas empírico-indutiva”, de modo heteronômio, tendo-se a oportunidade de adequar a teoria a uma realidade que tenta sempre se equiparar com países de primeiro mundo, nunca com países da vizinhança latina. Logo, tendo como prática metodológica a redução sociológica, aferindo a teoria na aplicabilidade do objeto de forma que sua análise não fuja das especificidades locais. Na preocupação em buscar uma saída da falta de uma originalidade, e até da legitimação do campo de pesquisa no Brasil, com o cuidado de não burocratizar a ciência, observou que esta precisa estar e ser feita a partir de uma realidade nacional.

É certo que em determinadas circunstâncias históricas, quando da formação da USP e da URFJ, vieram para o Brasil, missões internacionais, com o objetivo de solidificar os intelectuais e seus campos de pesquisa, que para além da implantação metodológica resultou, conforme o autor, num ‘subproduto abortício’. Por isso, a critica de Guerreiro Ramos volta-se para a construção metodológica a partir de uma prática ligada a vida, se autoconhecendo e reconhecendo as estruturas nacionais e regionais – sendo que para o autor a sociologia deve ser construída obedecendo cada regionalidade, libertando destarte os especialistas de normas e metodologias inseridas nos textos estrangeiros.

Nestes termos, propõe sete teses, que são centrais na cartilha, de forma a mudar o que estava em debate no II Congresso Latino-Americano de Sociologia. Com as quais observa a aplicabilidade da ciência ligada a realidade, mas também a circunstâncias financeiras das instituições e da população, como aborda na terceira e quarta teses sobre recursos de pesquisa e nível cultura da população, com a intenção de fazer a sociologia, uma prática de resolver problemas em vias de melhorias de vida social.
Muito embora o autor tenha com essas teses riscado seu nome da historiografia sociológica brasileira, com certeza foram válidas e dignas de uma analise mais cuidadosa, ainda que estruturalmente as cátedras da época tenham sido fortemente contrárias, suas propostas ficaram marcando uma necessidades de se fazer uma sociologia de poucos para si mesmos, ou de poucos para os muitos excluídos de uma desigualdade social que se perpetua.

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