quinta-feira, 19 de novembro de 2009

As marcas de uma sociedade na arte

Desde os primórdios, as sociedades vêem deixando vestígios em diversas formas de arte, sejam pintura, escultura, cestaria e música; formatos tais que expressam organização clânica, genealogia, estruturas e mitologia. A arte, observada como objeto estudo, “é possível tê-lo como fenômeno estético, importante para o estudo das representatividades simbólicas, possuidora de dimensões filosóficas, reflexiva e de significado cosmológico” (Velthen apud Levy-Strauss). Nestes termos, a música aparece em “O mistério do samba”, como um campo privilegiado onde é possível perceber como aspectos do debate sobre definição da identidade brasileira, influências e seqüelas.

Nesta obra, Hermano Viana, propõe apresentar a transformação do samba, de música repreendida à identidade nacional. Processo que desde fins do século XIX e início do século XX, que passou por diversas modificações histórico-sociais, identidade que apercebida por Gilberto Freyre, poderia ter sido construída, a partir do encontro de uma roda de músicos de classes sociais e estilos diferentes, e ainda escritores como Gilberto e Sergio Buarque de Holanda. Através destes encontros se conceberia a adoção de um ritmo diferentemente ouvido pela classe erudita clássica. Demonstrando o autor assim que o samba não nasceu necessariamente no morro, mas embaixo e em área nobre.

Sob olhar freyreano, críticas abordam saudosamente, um Rio de Janeiro que há muito estava empapado de inspiração e poesia, e que emanava de qualquer esquina – tudo era motivo para uma nova composição, desavenças, amores, desilusões,... Mas que aos poucos foi modificado pelas intervenções urbanísticas, sofridas nas primeiras duas décadas. Das quais, neste período, o compositor Sinhô, compôs “A Favela vai abaixo”, com primeira gravação em 1927 – na voz de Francisco Alves -, apresentando o episódio, parodiando as ações do engenheiro que chamava-se Agache, provavelmente nas prefeituras de Pereira Passos ou ainda de Arthur Bernardes. A princípio, as aspirações por ‘modernidade’, eram na busca de equalizar as favelas e cortiços que se localizavam entre mansões de distintas famílias, e a preocupação de formar uma avenida (Atlântica) para o comércio e a alta sociedade. Empurrando assim, os pobres e negros para a zona norte. Freyre visualizou o campo privilegiado e representativo da música – identidade étnica, construção de mundos, transformação social por contatos interétnicos, em circunstância no ‘encontro’.

No cenário fundado entre ricos e pobres o samba estava com ascensão às casas de shows, cinemas entre outros espaços, que ficariam para sempre marcados pela fecundidade e de presenças marcantes que compunham, por exemplo, “A Casa da Tia Ciata” e o Cinema como o “Palais”. Casas como as das baianas “Tia Ciata e Tia Amélia – mãe de Donga”, eram redutos de bons violonistas, músicos e compositores de cor negra, que eram perseguidos no início do século XX pela polícia – o negro com viola que fosse pego andando na rua com um violão era preso. Mas que com esse relativo acesso, cantou e encantou gerações de classe média, que passaram a buscar os mestres negros para aprender a arte do violão e instrumentos de sopro, como no caso de Sebastião Cirino – componente dos oito batutas, e que morou por quatorze anos em Paris – e a moça francesa que contratou seus serviços.

Essa inspiração buscava autenticidade de estilo, e que por muitas vezes foram taxados de influenciados pelo jazz americano, como ocorreu à música “Carinhoso” (1929), do compositor Pixinguinha. A ligação dos compositores com suas obras, neste período histórico, formavam a caracterização manifestações concretas e específicas de estilos que ultrapassa as influências quer africanas, quer ciganas, quer americana. Ora, esse emblema étnico significava disfarçar a opressão do preconceito. Diferentemente do que aconteceu com os negros nos E.U.A., na qual o negro não representava influência psíquica.

E com o surgimento e inauguração das Rádios, por exemplo, Rádio Brasileira, e sua disseminação, Rádio Cultura Brasileira, Rádio Casé, etc. Assim como as gravadoras de LP’s, como a Odeon, ajudaram a divulgar e popularizaram a MPB – Música Popular Brasileira, e seus mais variados estilos: polcas, maxixes, tangos, valsas, mazurcas, schot-tishes,... Até a gravação do primeiro samba em 1917, registrado coletivamente: “Pelo Telefone”. Assim como aparecimento de compositores/cantores/músicos que influenciariam gerações: Os 8 Batutas (1921), Turunas Pernambucanos (1927), O Bando dos Tangarás (1929), entre outros ícones – Noel Rosa, Ismael Silva, João Maximo e Carlos Didier, Orlando Silva,....

Obra de suma importância cultural, histórica e antropológica no estudo da arte, de dimensão e riqueza de fatos incríveis. Abordando a importância desse estilo – o samba – conclui-se que o samba não surgiu especificamente no morro, mas na zona sul, no contato interétnico. Resgatando uma parte da rica cultura e de construções musicais magníficas, que está aos poucos, sendo deixada para trás – pois quem detém esse conhecimento pouco divulgado está morrendo -, mas que em muito tem a ensinar às futuras gerações.



VIANA, Hermano. O mistério do samba. Cap. 1 e 7. Ed. Jorge Zahar. Ed. UFRJ, 1995

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