terça-feira, 18 de agosto de 2009

Uma etnografia da praça da matriz



Manaus, no período de sua elevação a província, nem parecia fazer parte do Brasil, porque aquele que fosse pego de outro estado por mais de dois anos sem se naturalizar amazonense, seria deportado. O comércio na década de 40 se localizava na Rua Eduardo Ribeiro, mas bem caracterizado e seguimentado, pois a padaria pertencia a um português, o comércio de miudezas e tecidos dividia-se entre judeus e turcos, e a construção civil era estritamente inglesa. Esta era a visão que se tinha quando se chegava em Manaus entre o período de queda do ciclo econômico da borracha e a movimentação para a implantação de mais um ciclo econômico: PIM.

Observando as características diferenciadas dos grupos ali existentes, busquei, segundo os moldes culturalistas, compreender os passos pelos quais aqueles indivíduos tornaram-se aquilo que são. Sabe-se que cada indivíduo tem em si tendências, mas a cultura a qual pertencem realiza a seleção. O grande arco das possibilidades humanas da Praça da Matriz subdivide-se em padrões culturais conformando os indivíduos aos valores próprios de sua cultura. Cada cultura apresentada traz uma personalidade que é estimulada em cada indivíduo que foi entrevistado. Segundo Ruth Benedict, o indivíduo é uma pequena cria de sua cultura, e, tomando parte nas atividades dessa cultura, as crenças, os hábitos, os valores, as possibilidades, enfim, os costumes de sua cultura serão seus.

Caminhando pela praça, senti o sol, que não dava trégua naquela manhã, no entanto, uma brisa fresca amenizava o calor e a sombra das árvores dispostas assimetricamente no que restava dos jardins da praça refugiava do calor dos que ali chegavam. Embora a manhã estivesse tão clara, o ambiente parecia nublado naquela área da praça. A maioria das pessoas olhavam como que intrigadas.

Observando mais profundamente o ambiente, percebi algumas mulheres sentadas nos bancos fazendo ponto e, segundo os depoimentos coletados de algumas pessoas que ali estavam, aquele lugar era um ambiente perigoso. Prostituição, roubos e furtos são comuns.

Alargando mais o olhar percebe-se que os indivíduos acumulados ao redor de toda igreja agrupam-se de acordo com as atividades que exercem para garantir a sobrevivência, mostrando feições culturais diferenciadas, formando um grande arco de possibilidades humanas: os hippies, os fiéis, os desocupados, as prostitutas e os vendedores, estes, formando o grupo dominante e ocupando maior espaço. São vários mundos paralelos que dividem o espaço e dividem estórias.

Investigando a vida comercial da praça, iniciando pela calçada atrás da igreja e chegando até a parte esquerda da praça, onde cruzam as ruas sete de setembro e rua da instalação, neste percurso encontramos dois grupos distintos de ambulantes: os novatos e os antigos. Os novatos – aqueles que possuem de meses até 1 ano ali trabalhando, localizam-se na parte posterior da igreja. Estes indivíduos ainda que muitos sejam amazonenses natos, são provenientes de linhagens familiares que migraram nos últimos trinta a vinte anos, alguns ainda trabalharam no PIM – Polo Industrial de Manaus – mas com as últimas crises tornaram-se um exército de reserva, sendo partícipes dos processos econômicos como Polany aborda in A grande transformação: “Uma economia de mercado significa um sistema auto-regulável de mercado, em termos ligeiramente mais técnicos, é uma economia dirigida pelos preços e nada além disso”. Assim como na fala de Dona Êna – Da Banca de Pastel - ela é paraense mesmo morando a 20 anos em Manaus e diz que “se tivesse condições voltaria para a terra natal de seus pais e avôs, pois está ali para trabalhar”; ou ainda o Sr. José, que há 15 anos trabalha na praça, em uma banca onde descasca castanha que vem do Rio Madeira, oriundo de Santarém, alega que lá onde morava não há emprego suficiente para todos, por isso veio para Manaus. Dessa forma, esses novatos não possuem um vínculo mais cultural com a praça além do econômico, entretanto, eles demonstram que o aproveitamento do espaço resulta na oportunidade de realização de novos negócios, que o comércio formal não mais oferece.

Assim como afirma Boas, “toda cultura tem uma tradição, uma essência e essa tradição podendo ser mudada, plural na sua essência, de alguma forma é um determinismo de comportamento num misto de símbolos e cores”. Observamos esse misto de símbolos e cores na efervescência que a praça representa, neste complexo cultural ali expressado em curto espaço geográfico. Demonstrando a pesquisa de campo na fala de D. Walkíria (45 anos), nascida em Portugal, mas que mora no Brasil desde os 5, em Belém, há 15 em Manaus. Veio a passeio com a família e por motivo de doença do pai foi ficando, encontrando uma maneira de ganhar a vida. Chegou a trabalhar no PIM, mas é na praça que se fixou, na qual além de uma oportunidade de trabalho o lugar é “um ponto de encontro entre culturas”, diz. Continuando nossa pesquisa, conhecemos o senhor Dulcino (55 anos), paulista, veio a Manaus há 23 anos a passeio e ficou trabalhando na praça há 8 anos, vendendo bonés, bolsas, fitas cassetes e bijuterias. Para ele o lugar possui uma significação de “seu dia-a-dia, vivência e ganha pão”.
Seguindo este raciocínio, com os ambulantes antigos, que tiveram a oportunidade de presenciar as mudanças geográficas e institucionais bruscas na praça, com as quais readaptaram-se ao meio para o contínuo da busca pela sobrevivência. Conforme Ruth Benedict (2006) quando cita “Nenhum outro problema social nos cabe mais forçosamente conhecer do que este, do papel que o costume desempenha na formação do individuo”. Confirmando-se no relato de Dona Solange que hoje tem uma banca de langerie – parintinense – descendente do ciclo da borracha, sendo herdeira da 3a Geração de indígena. Veio para Manaus para ganhar a vida – aos 20 anos – começou vendendo café nos barcos, frutas para os viajantes, e conseguiu uma banca na praça pra vender calcinhas. Quando mais jovem, freqüentava a praça para namorar – “tinha flores, e um mini-zoo”, relata – na qual chamava as pessoas ao passeio. Nesse tempo havia uma pequena cerca para proteção da grama, cerca de 60 cm, e com a resolução do padre nos últimos seis anos em cercar a praça, trouxe muitos desentendimentos entre a igreja e ambulantes. “Não gosto das grades atuais”, comenta. Por seguinte, outro personagem da praça, que trabalha lá nos últimos 30 anos, é o Senhor Jorge – amazonense – trabalha com fotografia na praça – fotos exóticas, como por exemplo de uma cobra de 15m que engoliu um índio ––, descendente de caboclos coletores de produtos naturais e agricultura (linhagem negra). Ele chegou a trabalhar na praça antes e depois das grades, ficou na primeira escada, próximo da Via aquário. No início era somente nos fins de semana, enquanto que na semana trabalhava no PIM. Relatou que antes as bancas eram simples, e que depois a prefeitura padronizou para as atuais bancas, o posto policial e o ônibus do judiciário conseguintemente, mas que na prática não adiantou muito, a corrupção, a violência, e a conveniência com a bandidagem continuam.

Naquele ambiente cosmopolita em meio a divergências gritantes uma unidade os inclui: a busca de uma vida melhor, a luta pela sobrevivência. O todo existente é formado por segmentos. Cada grupo vive a sua verdade e no panorama global configuram os indivíduos que seguem caminhos diferenciados. As atividades exercidas pelos indivíduos, sua forma de trilhar os caminhos da vida, de estabelecer comunicação, a relação com o outro e com o mundo espiritual deixa claro a variação cultural observada e cada uma dessas culturas é fruto de processos sócio-culturais, psicológicos, históricos e geográficos únicos.

Os personagens entrevistados apresentaram normas de conduta estimuladas pelas instituições às quais estão submetidos. O modo de vida, suas virtudes, a capacidade de lutar pela vida, suas histórias, alegrias e frustrações, suas culpas, sua religiosidade são apreendidos na ordem social da qual estão fazendo parte. “Tais comportamentos não podem ser instintivos no sentido de que os seres humanos possam nascer com esse conjunto de instintos responsáveis por suas ações. No entanto, isso não os regula inteiramente, pois seguem veredas distintas marcadas por seus objetivos, finalidades e pela forma como concebem o mundo (Benedict, 2006)”.

Na análise do trabalho etnográfico feito em equipe, concluímos que o legado indígena e nordestino, que povoaram a cidade e os seringais amazonenses, conforme informações de historiadores, está nitidamente retratado no ambiente da Praça da Matriz. O jeito de ser amazonense freqüentador daquele espaço geográfico pode ser observado nos traços biológicos e nos costumes dos entrevistados. Os produtos artísticos (artesanatos) e alimentícios (tapioca, tucumã, peixe frito, a farinha, pamonha, baião, pirarucu de casaca, cocada, tacacá, etc.) que são comercializados retratam as origens do cocar e da poronga que constituíram dois reinados distintos. Muito embora tenhamos encontrado ainda afro-descendentes dentre os camelôs, que se assumem com tal e são reconhecidos no seu meio.

Entretanto, dentre as pessoas entrevistadas, ainda que com alguns traços biológicos indígenas e ou ainda com costume que identificamos como tais, nenhum deles assumiram identificar-se como indígenas. E quando perguntamos se o entrevistado possuía algum parente indígena, ou ainda descendência, ouvimos a seguinte pergunta: “Em que sentido você quer saber ?” . Partindo dessa indagação, ou contra-pergunta, entendo que a essência da praça não é indígena, pois além do preconceito visualmente declarado, vi o problema que Viveiros de Castro relata em sua entrevista: “...o problema das etnias submergentes, daqueles coletivos que estavam seguindo, por força das circunstâncias...”. E junto com o problema, a problemática de se saber afinal quem é índio, sendo aquele que se reconhece como índio, e que em sua comunidade o reconhecem como tal, e este indivíduo possui histórico, sócio-politico e cultural indígena para ser identificado como índio. E, infelizmente não encontramos ninguém que se ‘enquadrasse’ nesse conceito, apenas descendentes de terceira e quarta geração, e serão estes considerados índios? Será então que são índios civilizados? Seguindo o entendimento do culturalismo da escola americana, acredito, ser no mínimo incoerente. Pois, pelo pouco tempo de campo que dispomos, nos constrange a não fazer afirmações sem antes ter um estudo com mais fontes de parentesco, pois analisamos somente as linhagens. E linhagens estas que conforme estudo seriam as principais: brancos, índio e negros, caboclos considero como resultado da miscigenação e dos atritos interculturas. Conforme Boas e suas discípulas, vemos na praça a corrida pela sobrevivência diária, num espaço reduzido, onde todos tiram o melhor proveito para ganhar alguma coisa, seja o artesanato, as moças que fazem ponto e até o posto policial, onde os guardas ganham um ‘troco’ soltando malfeitores. E esse jeito de tirar o melhor proveito de tudo e de todos, é marcante do europeu. E não estou reduzindo a essência a um aspecto econômico, puro e simplesmente, pois você não será um verdadeiro ser humano, a menos que suprima essas tendências – a tal pressão social, segundo Mead (2000). Assim, observei que essas pessoas foram treinadas para possuírem uma personalidade agressiva, para dominar as personalidades submissas – seleção natural – destarte como todos nós que vivemos nessa corrida cosmopolita pela sobrevivência. Sendo claro, que conforme Benedict (2006), a essência é o que na realidade liga os homens é a sua cultura – as idéias e os padrões que têm em comum.

Nenhum comentário:

Postar um comentário